Tania SchaeferTânia Schaefer – Médica oftalmologista Doutora em Medicina pela USP; Vice-presidente da SOBLEC

O olho é o órgão mais envolvido e solicitado na maioria das atividades humanas.
Incluir a qualidade de visão na definição ‘qualidade de vida’ passa pelos critérios de inclusão da OMS (Organização Mundial da Saúde), composta por alguns domínios, entre eles os competentes físico, psicológico, das relações sociais e do meio.
O principal paradigma atual está no equilíbrio entre o modelo de vida dentro e fora do trabalho, no qual novos valores vieram se impor frente às demandas sociais e tecnológicas. O modelo humano em desenvolvimento vem sendo desenhado a partir dos hábitos de vida, que aderem dia a dia mais ao uso da visão de perto e de meia-distância pela utilização indiscriminada e constante de telefones celulares e tablets como fonte de informação e conhecimento. O Modelo Darwiniano do Ser Humano passará provavelmente por um ser humano de olhos grandes e míopes nos próximos milênios, o que vem sendo delineado pelo aumento da incidência da miopia.
Estudo de avaliação de tendências sobre Prevalência Global de Miopia e Alta Miopia estima que entre os anos 2000 e 2050 a miopia e a alta miopia sofrerão aumentos significativos, com implicações para serviços planejados, incluindo a gestão e prevenção de complicações oculares relacionadas à miopia e perda de visão em aproximadamente um bilhão de pessoas com alta miopia. Quando falamos de um bilhão de altos míopes até 2050, temos que pensar nas patologias associadas ao distúrbio (catarata, glaucoma, descolamento de retina) e nas formas de prevenção e de seu custo socioeconômico.
Quais são os fatores predisponentes que levam ao quadro atual de aumento da prevalência de miopia na população mundial e que tanto nos preocupa? Sabemos que fatores genéticos são indiscutíveis. Como também o aumento da demanda acomodativa e a diminuição do tempo gasto ao ar livre.
Desta forma, temos como conclusão que a prevenção passa pela educação familiar, de pais e crianças quanto ao uso abusivo da tecnologia, que estimula o excesso da acomodação visual pela utilização indiscriminada de tablets e celulares, por exemplo, e pela volta aos hábitos saudáveis de estar em ambientes ao ar livre, com um mínimo de horas por dia para respeitar as necessidades e manter as habilidades do organismo.

Qualidade de visão e produtividade
A qualidade de visão está diretamente ligada à qualidade de vida, e se continuarmos neste exercício de busca desta associação devemos nos ater ao desempenho visual no trabalho. O conhecimento da relação entre trabalho e visão passa por uma área multidisciplinar da medicina, a Ergoftalmologia. A disciplina estuda o sistema de trabalho simples ou complexo e propõe melhor relacionamento entre trabalho e visão. Tem por objetivo a prevenção e administração do desconforto e das doenças oculares em relação ao trabalho. Além disso, procura maximizar a eficiência por meio da melhoria da qualidade visual do trabalhador, o que determinará melhor desempenho e maior produtividade.
Nos últimos anos, as enormes transformações implementadas nos locais de trabalho, principalmente devido a tecnologias baseadas em computador, passaram a exigir uma eficiência progressivamente maior do olho e dos componentes do sistema nervoso relacionado que coordenam os movimentos e a acomodação ocular.
Especificamente, pelo menos três determinantes devem ser considerados objetivamente: esforço visual, agentes ambientais e características individuais. Embora existam critérios para a avaliação de alguns desses elementos, é necessário um maior refinamento para “uma boa vida profissional” do aparelho visual. O Comitê Científico do ICOH sobre “Trabalho e Visão” está buscando desenvolver sistematicamente esse assunto, proporcionando uma abordagem mais racional e completa da relação entre trabalho e visão.
As principais mensagens deste consenso são: o desempenho visual ocupacional é progressivamente mais importante nas tecnologias modernas; distúrbios e distúrbios oculares e visuais (astenopia ocupacional) têm alta prevalência em trabalhadores; e a astenopia ocupacional pode interferir seriamente nos processos cognitivos, aumentando o chamado “erro humano”, que em tecnologias modernas também pode ter efeitos catastróficos (controle de tráfego aéreo, estação de energia nuclear, etc.).
A consequência do uso inadequado da iluminação no ambiente de trabalho ou em outras atividades do dia a dia e as alterações climáticas podem determinar um dos sintomas mais comuns, a astenopia.
Estamos falando em deficiência de qualidade de visão que leva ao cansaço, ao desconforto e, evidentemente, à baixa produtividade do trabalhador que, prejudicado por seu próprio ambiente, desenvolverá de forma inadequada suas atividades.
Não podemos nos esquecer das pessoas que estão em outros ambientes e que sofrem de possível focalização da fonte luminosa. Neste caso, estamos falando de lâmpadas que têm componentes de luz azul, como o caso de lâmpadas de halogênio metálico. Falamos também da emissão de luz azul por meio dos computadores e tablets. Muitos estudos estão sendo desenvolvidos e alguns já concluídos sobre se esta emanação consegue atingir a retina.
É importante saber que a luz azul que está inserida no espectro luminoso em uma faixa que vai de 380 a 520 nm com seu pico máximo em 441/442nm, é absorvida pela lipofuscina. A exposição à luz azul libera radicais livres, seja através de radicais de oxigênio ou diretamente da própria molécula A2E, que são tóxicos para o epitélio pigmentar da retina. O trabalhador deve estar protegido pelos efeitos da luz azul por meio de lentes que contenham este fator de proteção, mesmo que não demande correção óptica ou que use lentes de contato. Torna-se essencial este tipo de proteção.

Qualidade de visão x correção refracional
Para que haja qualidade de visão é necessária a correção adequada das ametropias com as opções do uso de lentes corretivas de óculos ou de lentes de contato. Mais do que a correção refracional adequada, precisam de condições tecnológicas de lentes corretoras de óculos ou de lentes de contato de alta qualidade, que propiciem excelente visão e conforto ao seu usuário.
Conhecer de forma adequada as características e detalhes técnicos das lentes oftálmicas permite ao médico oftalmologista corrigir da melhor maneira possível as ametropias de seu paciente, trazendo qualidade de vida, saúde e conforto.
A população brasileira é composta hoje de mais de 200 milhões de pessoas, das quais 55% são portadoras de algum tipo de correção visual, o que perfaz um número acima de 110 milhões de pessoas. Destas, 85%, ou seja, mais de 94 milhões de pessoas, estão aptas fisiológica e clinicamente à adaptação de lentes de contato. Deste universo, 60% estão na faixa etária compatível com a adaptação de lentes de contato e 20% têm condições econômicas para manter os custos da adaptação – em torno de mais de 11 milhões de brasileiros poderiam estar usufruindo dos benefícios que a indicação e adaptação correta das lentes de contato proporcionam.
O mercado óptico tem se aprimorado para trazer tecnologias que facilitem estas condições. Lentes oftálmicas que permitem a proteção aos raios UV a luz azul, melhoria na performance da visão de contraste por meio de materiais antirreflexo que são antiofuscantes, assim como tecnologias que permitem melhoria do campo visual periférico, determinando maior conforto aos usuários de lentes de contato quando estes retiram suas lentes. Essa última tecnologia surge no país como grande aliada dos usuários de lentes de contato que podem usar os óculos em tratamento ocular nas horas vagas, de estudo ou trabalho, evitando até uma maior tensão ocular causada pelos dispositivos digitais.
Temos apenas dois milhões de usuários de lentes de contato em nosso país. As causas são conhecidas e infelizmente não são superadas. Uma delas é o alto índice de DropOut, determinado pelo uso inadequado e estendido, a influência das facilidades de aquisição pela internet e outros meios e a procura do médico apenas quando as complicações aparecem.
Esta é uma grande oportunidade de oferecer a eles a correção por meio de lentes de contato e de óculos, que juntos poderão trazer todos os benefícios já descritos. Melhoria de visão longe e perto, melhor campo de visão e conforto.
As lentes permitem maior conforto e correção visual quando bem adaptadas. Os novos tornos multidirecionais computadorizados permitem desenhos os mais variados e capazes de corrigir aberrações ópticas não corrigidas pelos óculos ou por cirurgias.
Mas o uso demasiado de dispositivos digitais e também fatores externos, como poluição e luz visível, podem provocar mais cansaço visual sobre os olhos já fatigados, adicionando mais estresse a eles e tornando o uso diário de lentes de contato menos agradável. Por isso, o aconselhável é sempre aliar óculos e lentes de contato para ajudar na saúde dos olhos.
Já os óculos de potência negativa diminuem o tamanho da imagem e as lentes de potência positiva aumentam o tamanho da imagem, além de apresentarem muitas vezes distorções periféricas, efeitos prismáticos periféricos, o que traz desconforto ao movimento ocular, sendo este um dos motivos do desconforto do usuário de lentes de contato em relação ao uso de óculos.
Mas os óculos são insubstituíveis e devem de forma mandatória acompanhar os pacientes usuários de lentes de contato, míopes, astigmatas, hipermétropes, présbitas ou mesmo aqueles que fazem o tratamento transitório da miopia por meio da ortoceratologia. Não é correto transmitir ao paciente a ideia de que lentes de contato substituem os óculos.
Não é repetitivo afirmar que os usuários de lentes de contato devem ter sempre o recurso dos óculos à sua disposição. Não são meios corretivos excludentes. O paciente deve dar a seus olhos a possibilidade de descanso das lentes, por exemplo ao estar em casa depois de um longo dia de trabalho ou estudos; nesta hora ele terá que ter um recurso óptico para corrigir seu grau.
Esta prática é usual no dia a dia de minha clínica e deve ser estendida a todos os colegas, mesmo para os pacientes mais resistentes aos óculos. A indicação correta das lentes ideais, tanto para as ametropias básicas como para a presbiopia, auxiliará nesta pratica fundamental, para inclusive preservar nossos pacientes do uso excessivo das lentes de contato.
Para termos qualidade de vida é fundamental termos qualidade de visão. A preservação da saúde ocular é o fator de maior relevância. Todos os esforços devem ser utilizados.