Numa de minhas aulas em um congresso em novembro deste ano, um médico me perguntou: “Devo comprar ou alugar um imóvel para a clínica que estou montando? Qual a sua opinião?” Em outra oportunidade, um oftalmologista me perguntou: “Qual é a melhor opção: comprar, alugar, fazer leasing, assumir uma licença de uso ou receber em comodato o equipamento vinculando a compra de lentes e insumos do fornecedor por alguns anos?”
Minha resposta para estas perguntas foram similares e abrangem dois aspectos que explorarei neste artigo: o numérico e o pessoal, daquilo que mais adere ao estilo individual.
A decisão de aquisição de equipamento, por exemplo, deve seguir alguns princípios básicos numéricos e de estudo de viabilidade econômico-financeira. É uma ferramenta disponível e universal que utiliza matemática financeira: é necessário conhecer o preço e as condições comerciais. Quanto será o investimento total, incluindo o local físico de instalação, custos adicionais de operação, manutenção e assistência técnica; quantas pessoas estarão envolvidas no uso do equipamento, treinamento desse pessoal, tempo de paradas, isso do lado das saídas de valores. Também é necessário saber ou estimar o preço a ser cobrado pelos exames e se há mercado para justificar a decisão de ter o equipamento disponível na clínica, tempo de cada exame, vida útil do equipamento, se há saldo de caixa disponível ou a entrar para fazer frente à compra ou se será possível financiá-lo. De posse desses dados é possível calcular a taxa interna de retorno do investimento e compará-la com aplicações existentes no mercado, calcular o ponto de equilíbrio e até o pay-back do investimento. Ou se for para usar termos menos técnicos, quantos exames precisam ser feitos para pagar o equipamento? Feita a lição de casa, será possível tomar a decisão de compra ou qualquer outro tipo de arranjo comercial com o fornecedor.
Um cliente certa vez me contou sobre seu desejo de adquirir um equipamento – na verdade ele estava superanimado com um “negócio da China”. Pedi para olhar o estudo de viabilidade fantástico apresentado pelo fornecedor e descobri que o equipamento era vendido em dólar e o estudo não convertia para real. Ou seja, o investimento de (por exemplo) 50 mil dólares, estava como 50 mil reais – de “negócio da China” pulamos para totalmente inviável. Se foi má-fé ou falta de atenção por parte do fornecedor, nunca saberemos… mas o aprendizado é que é necessário ter alguém que confira os dados e faça os cálculos. Se a clínica não tiver essa competência, então que conte com profissional especializado e independente para tanto.
No caso de imóvel também é necessário o levantamento das informações de valores, situação fiscal e de pendências judiciais e tributárias do imóvel, custo de reforma e adaptações e enfim se o contrato – de aquisição ou locação – será assinado pela pessoa física ou jurídica.
O segundo aspecto que considero tão relevante quanto o anterior refere-se à disposição e estilo do médico investidor e empreendedor.
“Ter” um equipamento de ponta pode trazer satisfação pessoal em estar “na ponta” no que se refere às novas tecnologias. Porém, sem uma análise financeira de viabilidade econômico-financeira pode gerar situações em que ele não trará resultados financeiros adequados. Para estar atualizado em sua clínica, com o que é de melhor, é preciso “ter”? Se os números indicarem que outras opções são melhores, qual a necessidade real da “posse”?
“Ter” um imóvel tem significado, aqui no Brasil, de segurança, status e estabilidade – não há negociação periódica de valor do aluguel, há a noção de liberdade de sair quando quiser.
Mas, se os números não apresentarem boa relação, qual a razão do apego à posse?
Noto que os processos decisórios dos oftalmologistas estão muito relacionados às suas vontades e desejos e menos ao que a matemática financeira pode indicar. Planejar, projetar, calcular e analisar resultados deveriam ser atividades permanentes daqueles empreendedores que cuidam de suas clínicas e consultórios. As ferramentas financeiras e de administração estão disponíveis e já foram testadas inúmeras vezes em outros ramos de atividades. Usá-las nos seus negócios da saúde só pode trazer benefícios.

*Jeanete Herberg é administradora de empresas graduada e pós-graduada pela EAESP/FGV. Autora do livro “Sociedade e Sucessão em Clínicas Médicas”. Membro do Conselho Consultivo da Sociedade Brasileira de Administração em Oftalmologia, gestão 2016-2018.