|
Marina Almeida
O Congresso Mundial de Oftalmologia, que reunirá em São Paulo as principais autoridades mundiais em oftalmologia em fevereiro próximo, terá espaço especial para uma vertente fundamental, mas muitas vezes pouco reconhecida, no trabalho de prevenção e erradicação da cegueira no mundo. O Fórum Mundial para Organizações Não-Governamentais sobre Visão e Prevenção da Cegueira será uma oportunidade para que instituições sem fins lucrativos – brasileiras e estrangeiras – apresentem suas iniciativas no campo da deficiência visual e troquem informações por meio da análise de programas vigentes e proposição de ações futuras com base na experiência de cada ONG participante. A elaboração de um fórum dessa natureza é resposta ao caráter cada vez mais socialmente responsável do médico. Assim, além de passar por uma atualização científica, os oftalmologistas podem conferir de perto os programas realizados e conhecer um aspecto da especialidade que vai além do consultório. “Nosso objetivo é motivar ainda mais os oftalmologistas já engajados e orientar aqueles que ainda não conhecem este tipo de trabalho mas que têm vontade de colaborar”, explica Silvia Veitzman, presidente do Fórum e superintendente do Instituto da Visão e Desenvolvimento (Vidi). As entidades participantes do Fórum trabalham com programas de saúde ocular, acessibilidade, direitos de deficientes, inclusão social e prevenção à cegueira. A reunião de mais de 70 organizações sem fins lucrativos em um único espaço permitirá a criação do primeiro Banco de Dados Mundial de ONGs em Oftalmologia. Segundo Paulo Henrique Morales, consultor técnico da Fundação Lions Clube Internacional e um dos coordenadores do Fórum, esta será a primeira vez que dados relacionados ao braço do terceiro setor que se dedica ao combate à cegueira serão centralizados. “Essas informações existem, mas estão perdidas ou desatualizadas. No Fórum poderemos concentrar tudo num único catálogo”, explica. O material será fornecido a todos os presentes ao final dos trabalhos. O primeiro dia do congresso será voltado para apresentação de cada instituição e discussão de temas pré-determinados, como prevenção à cegueira, qualidade de vida do portador de deficiência visual, políticas públicas, defesa de direitos e gestão e captação de recursos. “Acredito que é dentro destes tópicos que as ONGs poderão introduzir seus conceitos e desenvolver seus critérios de trabalho e de organização”, destaca Silvia. Nos outros dias, representantes das instituições se reunirão numa arena – uma sala em 360 graus com 50 lugares – e debaterão de 8 a 16 temas escolhidos entre os mais votados durante a inscrição, que serão apresentados em 20 minutos. Um mediador coordenará a discussão aberta, com duração de 2 a 3 horas, após a exposição das problemáticas. “É através desse tipo de reunião que poderemos chegar a novas conclusões que favoreçam o desenvolvimento dos trabalhos dessas instituições”, diz Morales. Ao lado da arena, cada ONG contará com um representante e um espaço para banner explicativo, com casos bem-sucedidos. Segundo Silvia, a idéia é transformar o local num espaço de diálogo entre quem faz e quem quer fazer. O Fórum se baseou no princípio da responsabilidade social e pretende disseminar o conhecimento trocado e gerado durante as discussões. “Nunca houve uma proposta assim num congresso de oftalmologia. Queremos dar continuidade ao trabalho nos outros congressos dessa especialidade”, diz. Para Paulo Augusto de Arruda Mello, presidente científico da Associação Brasileira dos Portadores de Glaucoma (Abrag), é necessário que haja intercâmbio de cultura e de interesses entre as ONGs de combate a cegueira do mundo inteiro. “É uma oportunidade única para a demonstração de ações políticas, de campanhas de prevenção e da melhor compreensão de como agir, ora com o terceiro setor, ora com o poder público”, salienta. Para a Abrag, o Fórum representa uma maneira de expor seu trabalho e compartilhar informações relevantes para todos os que lidam, de alguma forma, com pacientes visuais. Durante o congresso, os representantes da ONG apresentarão o histórico da entidade e discorrerão sobre eventos como a criação do Dia Nacional de Prevenção à Cegueira pelo Glaucoma. Será também uma chance de compartilhar dados como o de um estudo feito com pacientes da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) que revelou que 40% dos portadores de glaucoma não têm a intenção de seguir o tratamento porque desconhecem os riscos da doença. “Como não tem sintoma e o tratamento consiste na aplicação de um colírio que arde nos olhos, a maioria acha o tratamento desnecessário. Por isso é tão importante esclarecer que o glaucoma não tem cura e é preciso manter fidelidade ao tratamento”, afirma Mello. O estudo ainda revela que cerca de 69% nunca comentaram com o médico sobre os efeitos colaterais das drogas e 27% dos pacientes erram o local de aplicação do colírio ou não aplicam a segunda dose necessária. Por causa disso, a Abrag produz folhetos e jornais desmistificando a doença e o tratamento – iniciativas que podem ser adotadas por outras ONGs participantes, em outros países ou circunstâncias. Já o Lions Clube Internacional, fundado em 1917 e atuante em mais de 190 países, conseguiu identificar os problemas visuais de cada região e desenvolver iniciativas específicas. Após um longo trabalho de prevenção a cegueira em todo mundo, a instituição concluiu que a catarata e a retinopatia diabética eram as principais causas cegueira na América Latina. Assim, no Brasil, a entidade investe no custeio de tratamentos e cirurgias das mesmas. Já a Europa é carente de informações sobre degeneração macular e glaucoma, incentivando que iniciativas nesse sentido sejam desenvolvidas. Para Morales, identificar problemas regionais e dar respostas individualizadas dentro de um mesmo princípio, mas com ações regionalizadas, é a melhor maneira de se obter resultados mais consistentes. Um estudo feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) e o Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), revelou que em 2002 havia 276 mil fundações e associações sem fins lucrativos no país. Não se sabe quantas delas se dedicam ao trabalho com deficientes visuais – situação que pode ser mudada com o levantamento que será feito durante o Congresso Mundial. Entretanto, apesar dos contextos diferentes, o intercâmbio de idéias durante o congresso será de extrema importância para o crescimento das ONGs participantes, já que doenças como glaucoma e catarata causam cegueira em valores iguais no mundo inteiro. “Alguns países têm o terceiro setor muito bem organizado. O Brasil copia os modelos lá de fora e agrega a nossa capacidade e características”, enfatiza Mello. O Fórum tratará de um conceito ainda relativamente novo no país, se comparado aos modelos de países desenvolvidos. “Ainda é uma questão cultural. Para a grande maioria falta entender que uma instituição pode colaborar – e muito – com a saúde pública”, aponta. “Esse Fórum ajudará a construir essa plataforma. É um momento singular para troca de experiência, que certamente será enriquecedor.” Para Silvia, do Vidi, o primeiro passo para que o braço visual do terceiro setor decole é uma mudança na mentalidade. “Aqui as sociedades sem fins lucrativos ainda têm um perfil extremamente assistencialista, o que pode ser uma barreira para a continuidade dos projetos”, explica. “O conceito de ONG que trabalha com o deficiente visual precisa ser mudado. Não só trabalhamos para eles, também ajudamos no conceito de cidadania.” Vale lembrar que o Brasil possui níveis de desenvolvimento bastante distintos entre regiões. O Norte e o Nordeste, por exemplo, têm causas de cegueira bem parecidas com o de países como África e Índia, como a baixa visão por causa da desnutrição infantil. Já as cidades do Sul e Sudeste têm índices muito parecidos com os países de Primeiro Mundo. “O papel de cada ONG é mostrar caminhos alternativos e fazer parcerias com a iniciativa pública, para que eles aproveitem o nosso conhecimento e coloquem em prática ações que realmente dêem resultados”, ressalta Silvia.
Ilustração: Eunice Liu
|