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Gonzalo Navarrete
Mais de mil profissionais, de diferentes cidades do mundo, reunidos em um mesmo congresso de oftalmologia para tomar contato com as mais recentes descobertas científicas da área. Só que sem precisar viajar, pagar hotel e deixar o seu consultório fechado por alguns dias. Basta um click do mouse do computador ou um pequeno deslocamento até uma sala de exibição na sua própria cidade. O que parecia coisa de filme de ficção científica hoje começa a virar tendência na oftalmologia. Tudo graças à tecnologia, capaz de reunir online os profissionais nos chamados congressos e simpósios virtuais. As primeiras experiências virtuais foram realizadas no Brasil há cerca de seis anos – ainda de forma limitada devido aos recursos tecnológicos da época – pela Sociedade Brasileira de Laser e Cirurgia em Oftalmologia (Bloss), considerada a maior rede de discussão da área online do mundo, com cerca de 1.300 associados em 10 países. Mas, a partir de 2003, as transmissões começaram a ganhar um impulso significativo graças à evolução das ferramentas envolvendo a Internet. A partir de imagens gravadas em estúdio, 250 médicos assistiram sete palestrantes pela rede por três horas. Além de acompanhar as aulas pelos seus computadores, os participantes virtuais também tiveram acesso a apresentações em PowerPoint simultâneas (mostradas em uma janela paralela), além da possibilidade de fazer perguntas online para os palestrantes no final do evento. Detalhe: os espectadores virtuais se conectaram do Brasil, EUA, Japão, Espanha e Argentina. Com a evolução da tecnologia e o aprendizado acumulado ao longo de mais quatro eventos similares, a Bloss se prepara para um passo ainda mais audacioso: a realização do 1º Congresso Virtual Internacional de Oftalmologia, o primeiro do gênero em todo o mundo, de acordo com seus organizadores. Os números dão uma idéia da ambição e ineditismo do evento. A programação prevê dois dias de congresso (9 e 10 de junho de 2006), com a participação de um público estimado inicialmente em 1.000 inscritos para acompanhar pelo menos 60 palestrantes, dos quais 20 são internacionais. Ao todo, serão 16 horas de transmissão via Internet, com foco na divulgação das novas tendências dos diversos setores da oftalmologia.
E o que é melhor: gratuitamente. Basta ser associado da Bloss (www.bloss.com.br).Antes do evento, os associados receberão via e-mail uma senha para acessar o conteúdo online do congresso. Segundo o presidente da entidade, Fábio Casanova, o congresso internacional terá uma estrutura que imitará ao máximo a de um evento real. Isso significa que os participantes poderão escolher as salas com os temas que mais lhes interessam, visitar estandes virtuais de empresas e conversar nos “corredores” com outros profissionais utilizando o chat. Quem não dispensa o convívio real poderá ver o congresso em uma das dez salas de projeção que deverão ser montadas nas principais capitais do Brasil. Além das aulas, o congresso também terá apresentação de temas livres e pôsteres. Outra facilidade garantida pela tecnologia: os vídeos ficarão disponíveis no site da Bloss por seis meses para quem perdeu ou quer rever algum dos trabalhos expostos pelos palestrantes com mais calma. “Os congressos virtuais não vão substituir os reais. Eles serão uma fonte alternativa de informação, principalmente para quem não pode ir a um congresso convencional, seja por falta de tempo ou de dinheiro”, afirma Casanova. Para os organizadores dos congressos e simpósios, os eventos virtuais representam outra vantagem essencial. Além de facilitar muito a logística (desde a locação de um espaço com diversas salas até aluguel de equipamento para projeção e contratação de pessoal para receber os participantes), os custos são bem mais vantajosos. A expectativa da Bloss é gastar R$ 150 mil no congresso virtual, número que equivale a cerca de 10% do custo total de um evento real do mesmo porte. O maior gasto será voltado para trazer os palestrantes a um estúdio em São Paulo e com a transmissão propriamente dita, que utiliza as tecnologias de web casting e video streaming. Na prática, isso significa que o internauta não precisa baixar os arquivos e nem ocupar espaço do seu HD para assistir os vídeos e as apresentações do congresso.
Via satélite Outra alternativa tecnológica que vem sendo utilizada para realizar congressos ou simpósios virtuais de oftalmologia no Brasil é a transmissão via satélite, capaz de atingir um número ainda maior de participantes, mesmo em cidades diferentes da América Latina. Esta foi a opção utilizada pela Allergan, multinacional que desenvolve produtos na área da saúde, com foco na oftalmologia. A empresa já realizou dois simpósios virtuais deste tipo nos últimos dois anos. No evento realizado neste ano, a empresa apresentou palestras com 30 profissionais de destaque e atingiu um público de quase quatro mil participantes, localizados em 27 cidades diferentes da América Latina, incluindo Brasil, Chile, Argentina, México e Colômbia. “Este é um evento único, no qual reunimos médicos formadores de opinião para difundir o que há de mais atualizado em ciência para o maior número possível de oftalmologistas da América Latina. Sem que eles precisem se deslocar de suas cidades, os participantes têm uma oportunidade única e gratuita de atualização científica”, afirmou Cristiane Villar, gerente de produtos de glaucoma da Allergan para a América Latina. Segundo ela, o principal objetivo da empresa é realizar uma ação de impacto e promover a imagem institucional da companhia. O investimento é focado e o retorno, facilmente mensurado, uma vez que a empresa não divide espaço com concorrentes, como acontece nos congressos tradicionais. E ainda recebe cobertura espontânea da mídia por conta da abrangência do evento. Os participantes são escolhidos e convidados pela Allergan e podem assistir às transmissões em salas especiais montadas para a exibição, incluindo tradução simultânea. Além disso, os participantes também podem utilizar o canal de satélite para fazer perguntas no debate final via telefone. As principais diferenças em relação ao uso da Internet como ferramenta de transmissão são os custos e a complexidade da organização do evento. Isso porque o simpósio via satélite envolve uma produção equivalente ao de um programa de televisão, com contratação de uma produtora para captar as imagens, o aluguel de um satélite, de um provedor de sinal, geradores de luz, sistemas de back up e montagem de uma estrutura para recepção do sinal e exibição das palestras em hotéis. Os custos de um evento assim podem chegar a R$ 1,5 milhão e exigem enorme capacidade técnica, diz Cristiane. “A vantagem do uso da tecnologia é a sua eficiência para unir comodidade e a capacidade para atingir um público tão grande. Mas os congressos e simpósios virtuais são complementares aos reais. É como comparar o cinema e o teatro. O contato ao vivo tem a sua magia”, afirma Remo Susanna Júnior, que presidiu os dois simpósios da Allergan e também preside da Sociedade Latino-Americana de Glaucoma.
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Nada como a emoção ao vivo Reencontrar um colega da época da faculdade depois de muitos anos em uma conversa de corredor. Examinar um paciente ou trocar opiniões sobre casos clínicos no meio de um congresso. Ou simplesmente aumentar o network. O contato humano e a interatividade são algumas possibilidades que os médicos ouvidos pela Universo Visual consideram insubstituíveis na comparação entre um evento real e um virtual. “A medicina se aprende fazendo. Estar presente é sempre um privilégio. É muito comum agendar um exame de um paciente de outro colega ou até mesmo marcar uma operação no meio de um congresso”, conta Paulo Schor, que é professor afiliado livre-docente da Unifesp, ex-presidente da Bloss e um dos principais responsáveis pela realização das primeiras transmissões virtuais com conteúdo oftalmológico no Brasil. Segundo Schor, os congressos virtuais ainda possuem hoje algumas limitações técnicas, como a exibição de imagens. Ele acredita que, num primeiro momento, os eventos virtuais podem ser principalmente úteis quando os temas abordados são “consolidados ou clássicos”, justamente porque não exigem tanta interatividade ou contestação. “Tudo depende do tema e do nível, tanto de quem apresenta como de quem assiste. Se ficar sentado duas horas em um auditório é chato, imagina então ficar sozinho o mesmo tempo na frente de um computador. A vantagem do computador é que você pode rever o material depois com mais calma. Mas é como o DVD de um show. A emoção do ao vivo é sempre maior”, compara. Com uma presença média em 30 congressos por ano, Wallace Chamon – professor livre-docente da Unifesp e editor associado do Journal of Refractive Surgery – também acredita que alguns conceitos são mais difíceis de ser transmitidos virtualmente, além da perda do contato pessoal com outros profissionais. Mas ele acredita que a tendência de aumento dos eventos virtuais pode ajudar a equilibrar o número excessivo de congressos reais existentes no calendário brasileiro. “Hoje os congressos reais dão temas de 15 minutos e a maioria dos ouvintes acaba sendo passivo por falta de tempo para a interatividade. Os eventos reais estão saturados por conta da inúmera quantidade de congressos pequenos ou médios. A tecnologia pode ajudar a racionalizar a quantidade de eventos”, afirma. “Se o assunto não será aprofundado ou não houver tempo para interatividade, aí realmente não compensa pagar uma inscrição, gastar com transporte e hospedagem e ainda arcar com o prejuízo de um consultório fechado. Nestes casos, a eficiência dos congressos virtuais pode ser até melhor, já que a pessoa só assiste se realmente se interessa pelo tema. Além disso, os congressos virtuais são mais baratos para os organizadores.” O presidente da Bloss, Fábio Casanova, também defende que os congressos virtuais vão ajudar a equilibrar o calendário de eventos no Brasil. Ele acredita que, com o aperfeiçoamento da tecnologia, a tendência dos congressos virtuais é aumentar, substituindo os eventos que não trabalham com foco voltado para a difusão de novas tendências de conhecimento científico e que hoje atuam com restrição orçamentária. Segundo Casanova, dois pontos ainda precisam ser desenvolvidos para o crescimento dos congressos virtuais. O primeiro é o número de fornecedores que oferecem a tecnologia de transmissão no mercado, que ainda é pequeno. Além disso, os internautas precisam ter um acesso de navegação melhor para poder usufruir de todas as possibilidades oferecidas pela nova tecnologia. E isso só virá com o tempo. Atualmente, 57% dos usuários doméstico de Internet no Brasil têm acesso à banda larga. A outra metade utiliza o acesso discado, segundo dados do IBGE NetRatings. “Quando se trata da difusão da parte científica exclusivamente, o aproveitamento de um evento virtual é igual ao de um real. O congresso virtual é mais uma fonte de informação e divulgação do conhecimento. Como tudo na |
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