Mark Abelson, Gari Torkildsen e Aron Shapiro Adaptado do artigo “Thinking outside de eyedropper”, da Review of Ophthalmology, setembro de 2005
Quando se trata de medicação ocular tópica, abundância nem sempre é recomendável. Todos os dias, pacientes pingam colírios em seus olhos usando recipientes criados na década de 50. Esses frascos liberam um volume muito maior de medicação do que o olho pode reter, resultando em desperdício e reações adversas. Nesse artigo, analisaremos os efeitos que essas gotas enormes podem ter, porque elas ocorrem e o que vem sendo feito para se criar uma gota de tamanho correto.
Pouco pode render muito O primeiro raciocínio para se reduzir o tamanho da gota é segurança. Essa redução pode reduzir a absorção sistêmica e possíveis efeitos colaterais de medicações oftálmicas. Algumas medicações para glaucoma, por exemplo, incluindo beta-bloqueadores e alfa-agonistas, são conhecidos por sua associação com efeitos no pulmão, coração e sistema nervoso central. É possível que esses efeitos diminuam significativamente ou sejam até mesmo eliminados por meio de uma redução no tamanho da gota. Estudos sobre clonidina tópica, por exemplo, um agonista α2 adrenérgico usado para tratar glaucoma mostraram que uma redução no tamanho da gota pode reduzir ou eliminar os efeitos colaterais de queda da pressão sangüínea causada pelo medicamento, mas mantendo sua eficácia. Uma redução no tamanho da gota também pode reduzir a incidência de sintomas como visão embaçada e desconforto. Apesar de benigna, a perversão de sabor também é relatada no uso de dorzolamida (Trusopt, Merck) e azelastina (Optivar, MedPointe). O excesso de medicação escorre pelo duto naso-lacrimal e vai até o fundo da boca e garganta, onde o sabor pode ser afetado. Para evitar essa situação, alguns oftalmologistas recomendam que pacientes pressionem o ponto inferior depois da instilação da gota para reduzir o escorrimento naso-lacrimal.
Dificuldades técnicas Apesar das inúmeras razões para redução das gotas, criá-las em proporções menores tem provado ser um desafio técnico. Os principais fatores são as propriedades físicas da medicação líquida, a ponta do frasco e a forma com que pacientes instilam a medicação. A relação entre a tensão superficial do medicamento e o diâmetro da ponta do frasco é descrito pela lei de Tate (W = 2 R ) em que W é o peso da gota, é a tensão superficial do líquido e R é o raio da ponta. Há uma relação linear entre o peso da gota, tensão superficial e raio do bico do frasco. Entretanto, em tensões superficiais menores essa relação começa a ser comprometida porque o líquido não consegue manter coesão e, à medida que a gota é expelida, ele imediatamente molha a superfície externa do bico do conta-gotas, aumentando a área de superfície (ou simulando um diâmetro maior) da ponta. Outros problemas podem ocorrer quando a ponta do conta-gotas é reduzida a um diâmetro muito pequeno. Ao se liberar água da torneira por uma ponta com diâmetro de 0,025 polegadas, uma gota de 11 µl é obtida. Entretanto, uma gota desse tamanho é tão pequena e leve que um paciente seria incapaz de fazê-la cair sem chacoalhar o frasco. Quanto à variabilidade do paciente, tanto a força quanto o ângulo com que o frasco é apertado influi no tamanho da gota. Uma força maior aplicada ao recipiente criará uma gota maior. Uma emissão extra do líquido é empurrado pelo canal do conta-gotas no momento que a gota está se separando da ponta, aumentando seu tamanho. Mudar o ângulo da instilação da gota é o mesmo que mudar o raio da ponta. Dependendo das dimensões do canal, inclinar o frasco pode aumentar ou diminuir o raio da ponta, portanto alterando o tamanho da gota de acordo com a lei de Tate. A maioria dos frascos produzirá gotas entre 25 e 70 µl. Já o saco conjuntival médio pode reter um total de apenas 20 a 30 µl antes de transbordar para as bochechas ou escorrer pelo duto naso-lacrimal. Como o volume humano de lágrimas é de 7 µl +2 µl, o olho só pode suportar um adicional de 10 a 20 µl de medicação antes de transbordar. Infelizmente, frascos conta-gotas atuais são incapazes de produzir o tamanho de gota ideal de 10 a 20 µl. A taxa de escorrimento do saco conjuntival é diretamente proporcional ao volume instilado. O volume de droga perdido do saco conjuntival afeta a porcentagem da dose absorvida no olho e seus efeitos farmacológicos. Alguns acreditam que reduzir o volume da gota instilada aumenta em quatro vezes a biodisponibilidade de drogas com baixa permeabilidade corneana e mantém a biodisponibilidade de gotas com alta permeabilidade corneana. Em outras palavras, menos é mais quando se trata de biodisponibilidade de medicações com baixa permeabilidade ocular. Pode soar paradoxal, mas considere o efeito que o lacrimejamento reflexo deve ter em eliminar medicações. Se você colocar uma gota pequena, pode ser possível ter uma melhor biodisponibilidade da droga permitindo que a medicação permaneça no olho por um período maior. Adicionalmente, uma gota menor pode resultar em piscadas menos freqüentes. Pesquisadores descobriram que o componente mecânico que resulta das taxas de piscar é crítico na avaliação da liberação da droga. Tentativas anteriores para liberação de drogas oftálmicas de maneira alternativa não obtiveram sucesso. Um exemplo é Ocusert Pilo (Alza Corp., Mountain View, Califórnia), um aparelho insolúvel, carregado com pilocarpina e colocado no cul-de-sac superior ou inferior para tratamento de glaucoma. Ele é aprovado para liberar pilocarpina por sete dias, o que é equivalente a quatro doses diárias de uma droga tópica. Mas além do custo mais alto se comparado a gotas de pilocarpina, não houve muita adesão por parte dos pacientes porque o aparelho era expelido pelo olho.
Outros aparelhos para liberação na frente do olho, como nanopartículas e lipossomos, têm sido pesquisados, mas nenhum deles chegou ao mercado.
Aparelhos em elaboração Há alguns produtos de liberação de droga extraocular em desenvolvimento para evitar as dificuldades usuais da liberação padrão do frasco conta-gotas. As empresas norte-americanas Mystic Pharceuticals, Med Instill e OptiMyst estão trabalhando em alternativas distintas ao conta-gotas padrão. Além de tratar do tamanho da gota, alguns desses produtos permitem a liberação de medicação em múltiplas doses sem a necessidade de preservativo. Conheça aqui alguns desses aparelhos:
- UniDoser. A Mystic Pharmaceuticals está desenvolvendo o sistema oftálmico UniDoser para a liberação de medicações tanto de uso não-controlado como de uso controlado para tratamento de glaucoma, infecções oculares, inflamação, alergia e olho seco. Esse aparelho também pode liberar medicamentos combinados. É desenhado para reter um suprimento de vários dias em ampolas de doses únicas. O aparelho pode ser facilmente reabastecido pelo usuário por meio da inserção de um cartucho de múltiplas doses. Um copo integrado auxilia no alinhamento do aparelho com o olho e mantém a pálpebra aberta durante a administração da droga. O design também permite que a medicação seja instilada sem a necessidade de se colocar a cabeça para trás. As ampolas de doses individuais liberam medicação estéril sem preservativos em doses de 10 a 20 µl, minimizando o desperdício.
- Eye Instill. A Med Instill está desenvolvendo o aparelho Eye Instill para fórmulas oftalmológicas de múltiplas doses, estéreis w sem preservativos. A tecnologia permite a instilação da medicação por meio de uma válvula de mão única. O aparelho também protege contra oxidação do produto e é capaz de prover doses medidas e não-medidas.
- Optimyst Systems Inc. Essa companhia está desenvolvendo um aparelho pequeno e manual que, como um umidificador, cria uma névoa fina e rápida da solução da medicação usando vibrações ultrassônicas. Não há propulsores, bombas mecânicas ou ventiladores envolvidos. A medicação pulverizada pode ser dirigida a uma região particular na frente do olho. Esse aparelho também pode prover doses medidas e está inicialmente destinado para ser usado em soluções de múltiplas doses preservadas. Estudos humanos preliminares usando uma solução para dilatação da pupila mostraram resultados muito favoráveis usando apenas uma pequena fração do volume típico da gota.
- Visine Pure Tears. O dispensador de gota única usado com o Visine Pure Tears é um aparelho atualmente disponível para o alívio temporário de sintomas de olho seco. Similar aos produtos do Mystic ou Med Instill, Visine Pure Tears é capaz de liberar múltiplas doses de solução sem preservativo. Ao invés de adicionar um preservativo ao agente, o dispensador tem um anel de prata anti-bacteriano na ponta para ajudar a prevenir contaminação.
Estão começando a surgir tecnologias inovadoras que oferecem uma alternativa ao frasco conta-gotas padrão, porque já foi provado que diminuir o volume da gota pode reduzir a incidência dos efeitos colaterais sistêmicos e até cortar o custo do tratamento eliminando o desperdício de medicação. Entretanto, um potencial obstáculo para a comercialização desses novos produtos será o custo do desenvolvimento e fabricação. Prestar atenção constante à satisfação e ao conforto do paciente com o uso de aparelhos mais avançados melhorará a eficácia da liberação de gotas e conseqüentemente o tratamento da doença.
Imagem: reprodução
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