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Outubro de 2005

TUMORES OCULARES
Efeito da exposição à luz azul e uso de LIOs em linhagens celulares de melanoma uveal humano


Miguel Burnier Jr.
Professor titular do departamento de oftalmologia da McGill University (Montreal, Canadá)

Uso de LIOs em cirurgias de catarata com absorção para UV e filtro para luz azul é recomendável para pacientes com fatores de risco para a condição

Alguns estudos têm sugerido que a exposição à luz azul pode induzir a transformação maligna de melanócitos, levando ao surgimento do melanoma uveal. Em seres humanos, é praticamente impossível a realização de estudos sobre o efeito da luz azul em induzir essa transformação. Contudo, a partir de modelos animais, pode-se chegar a algumas conclusões. Por exemplo, após a exposição de ratos à luz azul, houve o desenvolvimento de massas intraoculares diagnosticadas histopatologicamente como melanoma epitelióide.

Todavia, a exposição à luz azul de células de melanoma uveal humano com o intuito de observar alterações na taxa de proliferação celular nunca foi realizada. Esse estudo tem como objetivo determinar o possível efeito da luz azul, no comprimento de onda de 475 nm, nas taxas de proliferação de células de melanoma uveal humano.

Para tal, foram utilizados dois tipos diferentes de lentes intraoculares (LIOs): uma com absorção de radiação ultra-violeta (UV) e outra com absorção de radiação UV e filtro para luz azul. Quatro linhagens celulares de melanoma uveal (92.1, MKT-BR, OCM-1, SP6.5) foram expostas à luz azul por 3 horas por dia durante 4 dias. Cada linhagem foi exposta à luz azul com e sem a presença de LIOs com absorção para UV e de LIOs com filtro para luz azul. As lentes foram dispostas 13 mm acima das células, visto que essa é a distância normal entre a porção posterior do cristalino e a retina no olho humano. Células cobertas por uma folha metálica de alumínio foram utilizadas como controle. A taxa de proliferação das células foi comparada com o controle através de Ensaio de Proliferação Sulforodamina-B.

Todas as 4 linhagens celulares de melanoma uveal humano expostas diretamente à luz azul mostraram um aumento estatisticamente significativo na proliferação em relação ao controle. Quando adicionada a LIO com absorção para UV, ocorreu um aumento menor, porém estatisticamente significativo, na proliferação das 4 linhagens celulares quando comparado ao controle. Ao ser colocada a LIO com filtro para luz azul e absorção para UV, não houve aumento estatisticamente significativo na proliferação de 3 das 4 linhagens celulares (92.1 OCM-1, SP6.5). Um certo aumento na proliferação celular foi visto apenas na linhagem MKT-BR. Estudos anteriores demonstraram que a linhagem de células MKT-BR não possui potencial metastático, quando comparada às outras 3 linhagens utilizadas, provavelmente, por não apresentarem alterações no citoesqueleto.

Os resultados do presente estudo contradizem um artigo anteriormente publicado, onde os autores mostraram que a exposição de células de melanoma B16 à luz azul inibia o crescimento destas. Uma possível explicação para tal seria a manutenção do meio de cultura durante a exposição à luz azul, o que introduz variáveis extras no experimento. Nesse estudo, o meio de cultura foi retirado e substituído por HBSS antes da exposição à luz azul e após cada exposição o HBSS era substituído pelo meio de cultura normal. Essa metodologia foi realizada para prevenir a interação entre possíveis variáveis do meio de cultura, como cor ou proteínas solúveis, com o efeito da luz azul nas células.

Além dos efeitos mostrados nesse experimento, estudos recentes in vitro demonstraram que a exposição de células normais do epitélio pigmentar da retina (EPR) à luz azul causa apoptose dessas células e que a adição de LIOs com filtro para luz azul protege essas células contra a apoptose. Tal achado indica que a exposição à luz azul pode causar danos mesmo em células normais do corpo humano e que LIOs com filtro para luz azul têm efeito protetor sobre essas células.

Estima-se que 5 a 10% da população possua um nevus uveal assintomático, que, provavelmente, expostos a estímulos como a luz azul, podem sofrer transformação maligna. Portanto, baseando-se nos resultados apresentados nesse estudo, o uso de LIOs em cirurgias de catarata com absorção para UV e com filtro para luz azul seria recomendável, pelo menos nos pacientes com fatores de risco para o desenvolvimento de melanoma uveal, entre os quais se incluem: íris de cores claras, idade e exposição à luz solar. Tal atitude pode ser considerada como preventiva contra o possível efeito da luz azul na transformação maligna do nevus de úvea.


Foto: Lílian Liang


 
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