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Outubro de 2005

LENTES DE CONTATO
Evolução tecnológica das lentes de contato no Brasil


Cleusa Coral-Ghanem
Responsável pelo departamento de lentes de contato do Hospital de Olhos Sadalla Amin Ghanem

Pesquisas e expansão do mercado nacional prometem desenvolvimentos ainda maiores em lentes de contato

Introdução
Durante muito tempo o Brasil manteve uma política de portas fechadas às importações, criou obstáculos inclusive às joint ventures e à transferência de tecnologia, enquanto outros países, principalmente os EUA, desenvolviam-se amplamente nessas áreas. Em decorrência dessa situação político-econômica, o país sofreu atrasos de que hoje ainda se ressente. A revisão gradual dessa sistemática, a partir dos anos 80, e a conseqüente inserção numa economia de mercado, que já é inegavelmente global, vem permitindo uma sensível recuperação do tempo perdido. Todavia, em função da lentidão na absorção desse processo, muito provavelmente o país perdeu o seu melhor momento para gerar pesquisadores-empreendedores.

Especificamente no que concerne à evolução tecnológica no campo das lentes de contato, apenas nos últimos anos tem havido um aumento mais significativo. Mesmo assim, o mercado fornecedor continua baseado principalmente na importação.

Materiais e desenhos de lentes de contato gás-permeáveis
As principais indústrias brasileiras de lentes de contato (Mediphacos, Optolentes, Ultralentes, Solótica) importam os materiais gás-permeáveis em forma de blocos, principalmente da Polymer Technology Corporation (EUA) e da Paragon Vision Sciences (EUA). Os materiais gás-permeáveis híbridos Aquasil RSPTM e Aquasil RSP-PhTM (RSP-Photochrome), da Progressive Optical Research Limited – Canadá, são fornecidos pela Optolentes; o Hydro GP, da Vista Optics Limited – Inglaterra, é fornecido pela Solótica e o Contamac HFS, da Contamac – Inglaterra, pela Mediphacos.

Os fabricantes brasileiros desenvolvem seus próprios desenhos: esféricos, asféricos, tóricos, bifocais, lentes dupla face para ceratocone e lentes com curva secundária inversa. São utilizados tornos de controle numérico computadorizado (CNC) que executam com precisão os cálculos geométricos programados, produzindo lentes de alta qualidade.

Como desenhos especiais da Mediphacos podemos citar o desenho S/C, para alta miopia, que utiliza flange paralelo entre a zona intermediária e as curvas periféricas, reduzindo a espessura da lente e aumentando o conforto. É recomendado quando se consegue boa centralização da lente e o diâmetro pupilar não ultrapassa 5mm em baixa iluminação.

Desenvolvido e patenteado pela Optolentes, o desenho multi-esférico da lente Century XO (Polymer Techonology Corporation – Dk 100 ISO-Fatt) adapta-se na meia-periferia da córnea em até 80% dos casos. Essa lente possui zona óptica esférica de 7 mm e, a partir daí, sofre múltiplos aplanamentos, cada um em torno de 1D. A curva periférica é de 0,4 mm e o diâmetro padrão de 10,2 mm. Outro desenho exclusivo deste fabricante, produzido com o mesmo material, é a lente Planex 100-XO (Figura 1), com curva secundária inversa, para adaptar córneas obladas, especialmente pós-ceratotomia radial. Possui duas curvas-base: a central, de 34,00D a 45,50D, com diâmetro de 7,40 mm; a secundária é reversa, podendo variar de 41,00D a 46,50D; o diâmetro total padrão é de 11,40 mm (podendo ser solicitado de 10,40 a 12,00 mm) e os graus de -10,00 a +10,00D. A caixa de prova é composta por 24 lentes que trazem gravadas na sua superfície anterior o número de identificação. Esse desenho, semelhante a outros já existentes nos EUA, tem a finalidade de proporcionar alinhamento central entre a lente e a córnea, reduzindo o lago apical. Proporciona boa acuidade visual e conforto, mas apresenta limitações de adaptação devido ao tamanho da zona óptica central, que não pode ser fabricada com diâmetro inferior a 7,40mm. As lentes de geometria inversa, mesmo quando bem adaptadas, apresentam movimento limitado e podem sofrer o fenômeno de adesão. Para evitar a adesão, as lentes Planex 100 apresentam três fenestrações. Para ceratocone, a Optolentes fornece um desenho dupla face denominado Soper-McGuire (Figura 2). Como o próprio nome diz, é uma junção dos desenhos Soper e McGuire. Incorpora duas curvas-base na face posterior: a central (de 47,0 a 70,0 D) projetada para adaptar-se sobre o cone e, ao redor, uma outra curva intermediária mais plana (de 45,00 a 55,00 D), que apóia-se na meia periferia da córnea. A curva periférica é ainda 1 mm mais plana. A junção entre essas curvas principais é composta por outras pequenas curvas, muito bem polidas, que proporcionam conforto e mobilidade. Sua espessura central é de 0,10 mm ou menor e a zona óptica pode ser de diferentes tamanhos, sendo utilizada a de maior tamanho para cones de diâmetros grandes e a de menor tamanho para cones centrais tipo nipple. Pode ser fabricada com qualquer dioptria e o diâmetro da caixa de provas é de 9,2 mm, podendo variar conforme o tamanho do cone.

A Ultralentes fornece, para ceratocone, a lente Ultracone, que se diferencia das demais por apresentar desenho multi-asférico na superfície anterior e posterior. A curva-base central é esférica e pode ser confeccionada a partir de 46D. Os parâmetros variam conforme a solicitação do especialista. A asfericidade das superfícies proporciona melhor troca lacrimal do que os outros desenhos dupla-face disponíveis no mercado brasileiro, mas pode ser menos confortável para alguns pacientes (Figura 3).

Indicam-se os desenhos dupla face, tipo Soper-modificado, para ceratocones moderados, avançados e intensos. São mais eficientes para cones centrais e com diâmetros pequenos, mas podem ser adaptados em cones cujo ápice está levemente deslocado inferior ao eixo visual.

Materiais e desenhos de lentes de contato gelatinosas
Até o momento, todas as lentes gelatinosas brasileiras são fabricadas com materiais importados. A Optolentes está desenvolvendo um material que associa vinil-pirrolidona e glicerol ao monômero HEMA (2-hidroxietil metacrilato) com o objetivo de reduzir a desidratação.

No Brasil, fabricam-se lentes gelatinosas transparentes, translúcidas, filtrantes e pintadas, esféricas e tóricas não-cosméticas (com superfície posterior moldada e anterior torneada) para uso diário e flexível, de troca anual. A mais recente evolução em desenhos de lentes de contato gelatinosas diz respeito às lentes dupla-face para ceratocone. Recentemente a Optolentes lançou a Optogel 60 dupla face. Apresenta dupla curva interna e é fabricada com material hioxifilcon B + Glicerol, cujo conteúdo aquoso é de 51%. Pode ser feita com quatro diferentes curvas-base: 7.9/8.5, 7.6/8, 7.3/8.2 e 7.0/7.9; graduações de plano a –20,00DE e diâmetro total de 14,2 mm (Figura 4). Com a mesma finalidade, a Solótica desenvolveu a lente Ceratogel, que está em fase final de teste, por isso seus parâmetros ainda não estão definidos (Figura 5).

Todas as lentes descartáveis ou de troca programada disponíveis no Brasil são produzidas no exterior e os usuários brasileiros têm acesso a elas por meio de seus representantes. As lentes mais utilizadas aqui são dos seguintes fabricantes: Bausch & Lomb (EUA), Ciba Vision Corporation (EUA), Coopervision, Inc. (EUA), Johnson & Johnson Vision Care, Inc. (EUA) e Ocular Sciences, Inc. (EUA).

Conclusão
A constante expansão do mercado nacional e as pesquisas que estão sendo feitas por alguns fabricantes, assessorados por oftalmologistas especializados na área, autorizam a expectativa de que as proverbiais criatividade e iniciativa brasileiras ainda venham a fazer-se presentes para incrementar a evolução das lentes de contato no Brasil.


Figura 1 - Lente rígida gás-permeável de curva secundária inversa Planex 100 - XO (Optolentes - Brasil)

Figura 2 - Lente rígida gás-permeável Soper McGuire (Optolentes - Brasil)

Figura 3 - Lente rígida gás-permeável Ultracone (Ultralentes - Brasil)

Figura 4 - Lente gelatinosa Optogel 60 Dupla-face (Optolentes - Brasil)

Figura 5 - Lente gelatinosa Ceratogel (Solótica - Brasil)

Imagens: reprodução
Foto: Lílian Liang


 
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