:: Universo Visual :
 
Outubro de 2005

ENTREVISTA
Dedicação integral


Harley Bicas
Presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia

O novo presidente do Conselho Brasileiro de Medicina é um dos poucos professores em regime de dedicação exclusiva no Brasil. E ele promete levar o termo à risca em sua gestão

Lilian Liang

O oftalmologista Harley Edison Amaral Bicas não acredita em testes vocacionais. Foi por não ter se submetido a um deles que, diz, teve a sorte de encontrar sua verdadeira vocação 23 anos depois de ter saído da faculdade de medicina, que cursou nos anos 60. “Minha cabeça é de exatas. Se você me der dois artigos para ler, um de buracos negros e outro de DNA, vou ler buracos negros. Se me der neutrinos e vírus, vou ler neutrinos”, revela.

Mas como um físico de alma foi parar nos bancos da Faculdade de Medicina de Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto, sua cidade natal? Segundo ele, por uma razão simples e bem pouco glamourosa: porque que a faculdade lhe caiu no colo. Viu os melhores alunos da região estudando para ingressar na nova universidade, considerada revolucionária na época, e resolveu prestar também. Passou em segundo lugar no curso de medicina.

Na faculdade, viu que trabalhar com secreções não era exatamente o que tinha em mente para seu futuro. Aos poucos, chegou a uma conclusão penosa: não queria ser médico. Acabou se escondendo na oftalmologia, onde o caminho da luz e as leis da física pareciam reinar. “Podia ser senhor da luz e das trevas, mas não da vida e da morte”, brinca.

Paralelamente, foi criando gosto pelo ensino. No segundo ano da faculdade, enfrentou sua primeira turma de cursinho. Baixinho, mirrado e apenas um ano mais velho que seus alunos, sua aula inaugural foi honesta: quem não quisesse ficar, tinha liberdade para sair da sala. Mas quem ficasse tinha que respeitar os colegas. Foi o primeiro passo para conquistar a sala. Ninguém saiu e não houve bagunça. Ganhou de vez a turma com aulas bem amarradas e o jeito camarada de lidar com os alunos, que conserva até hoje.

Esses dois caminhos se cruzaram anos depois, quando resolveu ser professor na universidade que cursou por quase uma década. Queria mesmo era fazer pesquisa, mas como era professor de uma área clínica, tinha que atender pacientes também. E foi aí que começou a ser fisgado pela medicina. Começou a gostar de atender pacientes e encarar a medicina com outros olhos. “Diferente de mim, outras pessoas são médicos de vocação e não precisam ser conquistados. Mas mesmo esses vão descobrir a medicina depois de anos”, diz. “É aquela história: o recém-formado é graduado em medicina, mas ainda não é médico. Ele vai demorar um tempo, mesmo que seja vocacionado. E é bom que seja vocacionado porque vai demorar menos tempo. Mas se não for, a medicina pega também.”

Hoje, Bicas é um dos pouquíssimos professores em regime de dedicação integral em oftalmologia no Brasil. E como se os papéis de professor e médico, nessa ordem, não bastassem, resolveu se aventurar por território menos conhecido: a política. Bicas foi eleito em setembro, durante o 33º Congresso Brasileiro de Oftalmologia em Fortaleza, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, órgão máximo da especialidade no país.

Em entrevista à Universo Visual, ele conta alguns planos do novo político e a história do médico que demorou para encontrar sua vocação – até que finalmente foi encontrado por ela.

Universo Visual – Quais as metas para o seu mandato como presidente do CBO?
Harley Bicas – A primeira medida é a despersonalização da presidência. O CBO já é grande demais para ter projetos de apenas dois anos. Vou tentar me submeter às pautas de um organismo competente, como o conselho consultivo, que é formado por ex-presidentes com conhecimento para pautar os caminhos do CBO graças à experiência adquirida durante a passagem pela presidência e na prática da oftalmologia. Vou tentar insuflar nesse colegiado o gosto de planejar o futuro da entidade, planejar para que as condições que transcendam esse curto período de dois anos. Não posso governar para daqui cinco anos, mas posso pedir sementes e cultivá-las para que elas floresçam daqui cinco anos.
Do ponto de vista do funcionamento dentro do CBO, o que está dando certo será necessariamente mantido, com mínimas ou nenhuma modificação. Vou procurar manter a estrutura que vem funcionando bem – não sou néscio a ponto de desmontar um time para remontar outro que pode ou não dar certo. Algumas mudanças acontecerão nas comissões mais essenciais, como de ensino e defesa e mobilização profissional.
Sou muito democrático, não por virtude de espírito, mas porque acredito que a divisão de responsabilidade não só atrai mais peso na decisão, mas porque o colegiado geralmente erra menos do que apenas uma cabeça pensante. Freqüentemente são tomadas decisões mais conservadoras do que a maioria possa desejar, mas por ser um organismo grande, o CBO não pode estar sujeito a muitos sobressaltos. Portanto, quanto menos individualistas forem as decisões, melhor para a instituição. A idéia é tentar politizar e difundir o conhecimento de co-responsabilidade.

UV – Quais são as principais dificuldades da oftalmologia hoje?
Bicas – Além da optometria, existe também o problema do aviltamento do valor do trabalho profissional e a questão do ensino, do número grande de egressos de faculdades que se postulam a fazer a oftalmologia. Isso cria uma demanda por postos em serviços de residência, que a estrutura nem sempre está capacitada a oferecer. Houve um crescimento muito grande no número de faculdades, criadas pelo governo, que não foram estruturadas de forma completa. O aluno vai até o sexto ano e depois desses seis anos, a faculdade lava as mãos e te dá o diploma de médico, que juridicamente te capacita a exercer a medicina. O problema é que, do ponto de vista prático, pouquíssimas faculdades te dão condições de exercer sequer o mínimo da medicina. Cria-se, então, a necessidade dos cursos de residência, que existem em bons serviços, mas que não são legalmente vinculados à faculdade, ou seja, um egresso da minha faculdade precisa fazer um novo vestibular para fazer residência na mesma faculdade. Não existe continuidade.
O CBO é contra o número excessivo de faculdades que foram abertas sem o menor critério, porque oferece condições de ensino, mas ao mesmo tempo cria a necessidade de se bloquear o excesso de oftalmologistas. Não temos conveniência de suprir o ensino, mas por outro lado, fica difícil não suprir o ensino. São egressos de escolas médicas que querem fazer oftalmologia, que às vezes têm até condições relativamente boas, mas por outro lado existe uma pressão que isso seja limitado.

UV – Existe excesso de oftalmologistas ou eles estão apenas mal distribuídos? O CBO pode intervir nessa situação?
Bicas – Não sei se o papel do CBO é distribuir os oftalmologistas, porque é uma condição pessoal. Você não pode obrigar que o oftalmologista se dirija a outra região. E a tendência das pessoas formadas em centros maiores é permanecer no local. A questão é que não fomos nós que criamos esse problema. É mais ou menos como o ditado “Quem pariu Mateus que o embale”. Só que jogaram Mateus na porta da nossa casa. Foi o governo que criou essas condições todas, portanto é um problema de estrutura. Não é um problema da minha gestão, é um problema da estrutura.

UV – Como o senhor vê a interdisciplinaridade na oftalmologia?
Bicas – Nossos congressos estão caminhando para o futuro, onde devem se diversificar não só em temática, mas com espaço como outras matérias como arte na oftalmologia para atrair o público não relacionado à especialidade. Queremos atrair também aqueles que têm associações de pacientes, como a Lágrima Brasil e a Retina Brasil. Quero ver se vendemos a idéia de tornar os congressos um pouco mais abertos para não-especialistas, o que de certa forma enriquece esse intercâmbio que a oftalmologia tem que ter com a sociedade.
Nessa linha de intercâmbio, as campanhas certamente também serão incentivadas. Acho que temos uma obrigação indireta com a sociedade, principalmente com as classes mais humildes. As classes mais privilegiadas chegam a nós, mas as mais humildes chegam mal ou não chegam. Existem idéias de projetos comunitários de campanhas de prevenção.
Essa área de interdisciplinaridade com o meio acadêmico é uma área que eu prezo muito, pois grandes avanços geralmente vêm dessas áreas limítrofes. As grandes decolagens freqüentemente são de pessoas um pouco afastadas desse mundo central de produção numa área. Acho que esse intercâmbio é muito rico e desperta muitas idéias novas.

UV – O que fazer para que o oftalmologista se sinta mais representado pelo CBO?
Bicas – O pessoal ainda não percebeu a vantagem das associações, o que acontece em outras áreas também. Hoje temos hoje 12 mil oftalmologistas e só metade é membro do CBO. É uma questão educativa, porque quanto mais forte um organismo de classe, mais seus membros são protegidos. Isso não é muito ainda entendido num país novo como o nosso. Esse conceito não se implantou porque o brasileiro é um pouco individualista. Não é uma questão que dependa do CBO. Certamente tentaremos campanhas educativas para angariar a adesão de pessoas, mas não há pretensão de que nessa gestão a gente consiga um grande progresso nesse sentido. É uma questão de formação cultural.

UV – Como o senhor vê o crescimento do CBO?
Bicas – Quando comecei, o CBO era um organismo de fazer congressos e o presidente se limitava a ser o presidente do congresso. Não havia muitas outras atribuições porque todos esses problemas atuais não existiam. Com a crescente complexidade da nossa sociedade, a oftalmologia cresceu muito, houve uma diversificação de problemas que exigiram soluções, por isso os números de comissões são cada vez maiores. Parece megalomania, mas as necessidades que vão aparecendo e você tem que dar provimento de resposta.
Com o tempo, o CBO se transformou de um fazedor de congressos para um verdadeiro administrador do dia-a-dia do oftalmologista brasileiro. Isso de certa forma é bom, porque muitos oftalmologistas já perceberam isso e exigem do CBO uma contrapartida. Hoje o CBO tem um departamento jurídico altamente competente e um quadro de funcionários numeroso, mais ainda insuficiente. O crescimento foi muito positivo.

UV – O senhor é um acadêmico entrando na política. Como isso aconteceu?
Bicas – Isso vem com o tempo. A vocação política pode ser maior em uma pessoa que em outra, alguns vivenciam mais essa situação de ente político. É um engajamento progressivo, mas sempre tive meus arroubos de querer contribuir com as minhas sociedades. Fui presidente da Sociedade Brasileira de Estrabismo, fui presidente do Conselho Latino-Americano de Estrabismo e isso tudo foi me dando uma certa estrutura. Ser chefe de departamento ajuda a trabalhar com colegiados na universidade. Eu vivi no tempo de universidade democratizada, e não do professor catedrático, que foi do que eu comecei. O CBO naquele tempo era comandado por professores catedráticos que, a seu modo, geriam uma instituição muito imatura em termos de estrutura, de uma forma um pouco autoritária, porque essa era a condição daquele tempo. Eu, ao contrário, fui ensinado a trabalhar em grupo. É preciso ganhar a colaboração da pessoa e convencê-lo a trabalhar em grupo. Eu fui treinado nessa vivência administrativa – vim de chefia de departamento, colegiados de universidade, comissões no CBO. Isso vai te preparando a cabeça e te dando condições.

UV – Como o senhor escolheu a oftalmologia?
Bicas – No meu tempo existiam apenas três profissões dignas de um ser humano: medicina, engenharia e direito. Eu tive a oportunidade de fazer medicina porque caiu no meu colo. Fundou-se uma faculdade de medicina de altíssimo nível em Ribeirão Preto (USP-Ribeirão) em 1952, com uma estrutura absolutamente revolucionária para a época. Prestei vestibular e acabei passando em segundo lugar, em 1957.
No segundo ano comecei a dar aulas no cursinho, minha primeira experiência de magistério, galardoada pelos alunos. Isso foi me dando uma condição de professor. Quando digo que antes de médico sou professor não é vernáculo – é uma questão de cronologia.
Lá pelo quinto ano percebi que não tinha nada a ver com medicina. Não gosto de decidir entre vida e morte, lidar com secreções. Falei “Não posso ser médico, não quero ser médico.” Então o que vou ser? Aí descobri que tinha um órgão que cuida da óptica e pensei “Posso ser senhor da luz e das trevas, mas da vida e morte não”. Então me refugiei dentro desse órgão que pensei que fosse pequeno e simples de dominar, mas foi um engano.

UV – O senhor não queria ser médico e acabou oftalmologista...
Bicas – Essa foi minha primeira fuga: da medicina para a oftalmologia. Minha segunda fuga aconteceu pela condição excepcional de dedicação exclusiva em área clínica em Ribeirão Preto: fugi da oftalmologia de consultório para a universidade. Tinha que fazer alguma coisa da vida, então escolhi ser professor. No começo foi difícil porque eu só queria fazer pesquisa. Mas como professor da área clínica eu também tinha que atender pacientes e fui sendo envolvido pela medicina e pelos pacientes. Hoje eu sou médico. Faz mais ou menos 20 anos. Sou graduado há 43 anos e médico há 20. E faria tudo outra vez.
Foi ótimo eu não ter feito um teste vocacional para fazer medicina, porque senão teria ido para exatas. Hoje eu acho que a medicina é metade de técnica e conhecimento e metade de compreensão e conforto que deve ser dado ao paciente. Isso não se ensina na faculdade, mas vem de vários anos. Eu não era vocacionado mas fui conquistado. A medicina é tão poderosa que consegue te trazer para dentro dela. Eu sou um marginal. O fato de eu estar aqui é uma marginalidade, pois tem 12 mil oftalmologistas. Há uma marginalidade em eu ter feito estrabismo e persistido no estrabismo e gostar de matemática quando os médicos não gostam de matemática. Nessa condição, você precisa estar um pouco fora da vocação para cumprir a vocação. Hoje eu fui conquistado pela medicina. E ela ainda me conquista.

Foto: Lílian Liang


 
Copyright © Jobson Brasil - Todos os direitos reservados. All rights reserved.