Setembro de 2010

CATARATA
Avanço da LIOs

O grande avanço das lentes intra-oculares proporciona bons resultados de correção de erros refracionais pós cirurgia de catarata

Nos últimos anos, observou-se um grande desenvolvimento da cirurgia de catarata por meio da facoemulsificação. A cirurgia torna-se cada vez mais segura, sendo realizada por meio de incisões progressivamente menores, que, aliado ao desenvolvimento do cálculo ecobiométrico, permite uma boa previsibilidade do resultado cirúrgico do ponto de vista refrativo.
Acompanhando essa evolução, houve grande avanço das lentes intra-oculares, o que fez com que o estado refracional do paciente no pós-operatório passasse a ser uma das grandes preocupações, pois através da cirurgia de catarata é possível a melhora não só da acuidade visual, mas também a correção de erros refracionais previamente existentes. Isso faz com que a cirurgia de catarata seja encarada, hoje, como um procedimento capaz de liberar as pessoas parcialmente ou totalmente dos óculos.
As denominadas lentes intra-oculares Premium oferecem a médicos e pacientes uma gama de possibilidades para a obtenção do resultado refrativo desejado após a cirurgia. Lentes asféricas, tóricas, bifocais e multifocais, multifocais tóricas, ou mesmo acomodativas, estão à disposição no mercado, porém, em muitos casos, ainda não representam o fim do uso dos óculos após a cirurgia de catarata. Isso ocorre por vários motivos, mas principalmente por imprecisão do cálculo ecobiométrico, já que mesmo com o uso da biometria óptica, de imersão, e fórmulas de última geração, ainda observa-se a presença de graus esféricos e cilíndricos residuais que podem comprometer o resultado da cirurgia quando se deseja a independência parcial ou total dos óculos.
As opções disponíveis para a correção dessas ametropias residuais a cirurgia de catarata incluem principalmente as incisões relaxantes limbares, o excimer laser e a troca da lente intra-ocular previamente implantada. Todos esses procedimentos apresentam alguns riscos que devem ser sempre analisados de acordo com cada caso.
Este ano, foi lançada no Brasil uma nova opção para a correção das ametropias residuais a cirurgia de catarata, denominada Sulcoflex. É uma lente intra-ocular suplementar, especialmente projetada para ser implantada no sulco ciliar de olhos pseudofácicos.
Fabricada pela empresa britânica Rayner, é uma lente de acrílico hidrofílico (Rayacril), peça única, óptica asférica de aberração esférica “0”, borda arredondada, 6,5 mm de diâmetro, convexa na superfície anterior e côncava na superfície posterior, alças de borda arredondada e ondulada, com 14 mm de diâmetro e angulação de 10 graus.
Está disponível em três diferentes modelos: asférica, tórica e multifocal. O modelo asférico pode corrigir ametropias esféricas de -10 a +10 D. Já a tórica corrige ametropias esféricas de -6 a +6 D e cilíndricas de 1 a 6 D. O modelo multifocal corrige de -3 a +3 D esféricas, apresentando 5 zonas refrativas, que proporcionam uma adição de 3,5 D no plano da lente, “dividindo” a luz 60 % para longe e 40% para perto, através de 3 anéis para visão de longe e dois para visão de perto, sendo o anel central para longe. (foto 1)
A lente intra-ocular pode ser implantada através de uma incisão de 2,75 mm, utilizando-se um injetor descartável que acompanha a lente.
Assim, a multifocal passa a ser uma interessante opção, por exemplo, para aqueles pacientes que foram submetidos a cirurgia de catarata há vários anos e são dependentes de óculos para a visão de perto, devido ao implante prévio de lentes intra-oculares monofocais no saco capsular. Outras utilizações possíveis para essa lente são os chamados implantes “duets”, por exemplo, implantando-se no mesmo tempo cirúrgico uma lente intra-ocular tórica no saco capsular e a Sulcoflex multifocal no sulco ciliar, ou ainda em procedimentos combinados de catarata e vitrectomia com óleo de silicone, uma lente asférica que terá o objetivo de corrigir a hipermetropia causada pelo óleo de silicone. Quando for retirado o óleo, retira-se junto a lente obtendo-se então novamente a emetropia através da lente previamente implantada no saco capsular. Outras possibilidades estão em estudo, como o implante da Sulcoflex em crianças submetidas à cirurgia de catarata congênita, com o objetivo de obter a emetropia imediatamente após a cirurgia, retirando-se a lente à medida que houver o crescimento do olho, que continuará emétrope graças à lente previamente implantada no saco capsular que teve seu poder dióptrico calculado para emetropia na idade adulta.
A principal característica positiva dessa é a reversibilidade, já que pode ser facilmente explantada através de uma incisão de 2,75 mm, não necessitando ser cortada ou dobrada para isto, devido a grande flexibilidade do material que é composta. O cálculo da dioptria da lente a ser implantada é feito por meio de uma calculadora no site da Rayner, bastando para isso inserir a refração esféro-cilíndrica do olho a ser operado. A lente é compatível com qualquer material de lente intra-ocular implantada no saco capsular.
É importante frisar que pouco foi publicado até agora sobre esse produto e portanto, ainda são necessários estudos com maior casuística e tempo de seguimento para análise de seus resultados, complicações, sendo fundamentais a análise de fatores como contagem de células endoteliais, dispersão pigmentar e glaucoma, e até mesmo a satisfação dos pacientes submetidos ao implante da Sulcoflex, por exemplo em relação a fenômenos fóticos como presença de halos após o implante da lente multifocal.

CASO CLÍNICO
CCM, sexo feminino, 79 anos, submetida à cirurgia de catarata com implante de lente intra-ocular Acrysof IQ em ambos os olhos em meados de 2009.
Queixa principal: dependência do uso de óculos para perto para todas as atividades de leitura e trabalhos manuais.

Exame oftalmológico:
OD: +0.5 -0.5 75 20/20+
OE: +0.5 -0.5 125 20/20
Adição +3.0 D J1

Restante do exame dentro da normalidade em ambos os olhos.
Diante desse quadro foi proposto à paciente implante de Sulcoflex multifocal em ambos os olhos, cirurgias realizadas em abril deste ano (o segundo olho 15 dias após o primeiro), sob anestesia tópica, tendo sido implantadas lentes planas em ambos os olhos.
As duas cirurgias ocorreram sem qualquer intercorrência, com excelente evolução no pós-operatório, não sendo observanda hiperemia ocular, edema corneano ou aumento de pressão intra-ocular. Utilizou-se no pós-operatório apenas colírio de dexametasona e moxifloxacino 4 xx/d por 7 dias, seguido de colírio de fluormetolona 2 xx/d por mais 30 dias.
O exame biomicroscópico mostrava a lente bem centralizada em ambos os olhos, pupila redonda e fotorreagente. (foto 2)
A microscopia especular de córnea revela contagem endotelial normal para a idade, 2386 céls/mm2 em OD e 2293 céls/mm2 em OE.

A figura 1 mostra o exame de aberrometria do OE no pré e pós-operatório, utilizando-se o aparelho LADARWAVE e pupila de 5mm. Observa-se que praticamente não houve alterações, com as aberrações totais de alta ordem mudando de 0.35 um no pré-operatório para 0.4 um no pós-operatório, verificando-se pequeno acréscimo de coma secundário. Exatamente o mesmo padrão foi observado no exame de aberrometria do OD.

A figura 2 ilustra o exame de sensibilidade ao contraste do OE que se manteve inalterado no pré e pós-operatório, não havendo piora em nenhuma frequência espacial.
A acuidade visual apresenta-se para longe 20/20 sem correção em ambos os olhos e J1 para perto sem correção em ambos os olhos.
A paciente está contente com sua visão de longe e perto, estando no momento independente de uso de óculos para suas atividades cotidianas.

Otávio Siqueira Bisneto
Mestre em oftalmologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp); preceptor da Residência em Oftalmologia do Hospital de Olhos do Paraná; coordenador da Residência em Oftalmologia do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba
e-mail: otaviobisneto@hotmail.com

Lente Sulcoflex®

Cred: Reprodução


 
Copyright © Jobson Brasil - Todos os direitos reservados. All rights reserved.