Setembro de 2005

ENXERGAR
Um outro olhar

Ana Marli Schor

“Na mesa tudo está exatamente como há quatro anos, na época do seu casamento: o serviço de porcelana inglesa branco e azul, os copos de cristal da Boêmia, os talheres com o cabo de marfim, os saleiros de prata, o galheteiro de estanho, tudo está como naqueles dias distantes. Há, porém, as mesmas rosas no vaso de vidro verde; a mesma toalha e os mesmos guardanapos vermelhos bordados em branco; até o mesmo raio de sol que, entrando de través pela janela, faz brilhar porcelanas, pratas, cristais. Mas, ao mesmo tempo, tudo mudou, mudou profundamente.” (Alberto Moravia, A mulher de capa preta)
“Então a menininha de cinco anos fechou os olhos e passou correndo nua pela sala, cheia de gente.” (Vinheta clínica)
Quando pensei no que escrever sobre o olhar fiquei com receio de ocupar o lugar do chato que explica a piada. Qualquer pessoa sensível entende e se emociona quando lê as citações acima que, por si só, já falam tanto e tão bem.
Dos cinco sentidos, a visão é o que mais se associa ao pensar, ao perceber, e aquele que mais claramente revela essa troca constante eu-mundo. “A medicina antiga dizia que pensar é o passeio da alma e esse impulso ou essa aptidão para sair de si anuncia o parentesco que desde muito cedo criou-se entre o olhar e o pensar...”. (Marilena Chauí, A janela da alma, espelho do mundo)
É mais fácil pensar que existe uma realidade objetiva que recorto e capto com meus olhos do que a idéia de que também crio aquilo que vejo: um “olhar de lince” olha fundo, me penetra; “um olhar do coração” acolhe. O dia fica escuro quando ela briga com o namorado. Para complicar um pouco mais, o olhar pode captar o interior subjetivo porque o interior se expressa: “...tudo mudou, mudou profundamente.” Muitas são as metáforas do olhar que usamos no campo psíquico. Chamamos de insight (olhar para dentro) uma tomada de consciência, reflexões, pontos cegos para o que não vemos de nós mesmos.
Vivemos o tempo todo a oscilação ver-ser visto, ver o teatro do mundo fora de mim e ser visível para o mundo. Por que é tão interessante para a criança o jogo de esconde e acha? “Onde está a mamãe? Achou!” A mamãe, que desaparece de seu campo visual, vai embora e depois volta e volta e volta, repete o bebê para se reassegurar. Ou ainda: não sou tão passivo diante das perdas, faço a mágica do existe-não existe. Afinal, ninguém viu a menininha passar correndo nua pela sala! Você viu?
Um bebê precisa receber o olhar apaixonado da mãe, esse foco que o ilumina e o constitui como especial, único, erotizado, fonte de prazer, para mais adiante descobrir essa mesma fonte de prazer, agora para si próprio, no mundo. É verdade, entretanto, que cabe a nós despertar sua curiosidade e fazemos isso, por assim dizer, “enfeitando o mundo”. Quando dizemos: “Olha aquela borboleta azul!”, segue anexa a promessa: “Você vai encontra prazer, na cor, na forma, no movimento”.
Muito se tem escrito sobre a imagem, de tal forma que o olhar atualmente parece desprestigiado como meio de percepção e acesso ao outro, ao mundo e a mim mesmo. Talvez seja preciso discriminar capacidade de olhar de manipulação da imagem. Quando se aprende ver, uma imagem, ao mesmo tempo que encobre, igualmente revela.
Lembro-me daquela jovem que me dizia “Olha só!” e, a partir daí, desenvolvia seu argumento na discussão com o namorado. O que eu escutava era “Pára, olha para mim, olha como eu, mas olhe também além, me mostre o que esta aí que eu não estou vendo.”
Penso que é essa a oferta que fazemos àquelas pessoas que, sofrendo, procuram-nos para uma psicoterapia: um companheiro nessa viagem de criação e descoberta de outros olhares. Nada mais necessário para combater o isolamento, a crença num só olhar, essa perigosa certeza do fanático e do psicótico.

Ana Marli Schor é psicóloga e psicanalista


 
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