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José Vital Monteiro
Pesquisas recentes indicam que existe a possibilidade de a luz azul provocar lesões nas células do epitélio pigmentar na retina. Caso essa possibilidade seja real, as retinas de olhos que sofreram extração do cristalino e sua substituição por lentes intra-oculares estariam mais sujeitas a lesões dessa natureza, uma vez que o cristalino opacificado retirado funcionaria como um bloqueio contra a radiação nociva. Baseada nesses indícios, a Alcon desenvolveu a AcrySof Natural (SN60AT), uma lente intra-ocular de acrílico hidrofóbico, de peça única, com filtro de luz azul. O novo produto foi testado em dez centros oftalmológicos brasileiros antes de ser disponibilizado no mercado nacional e saiu desse teste clínico como uma opção para os pacientes que precisam se submeter à cirurgia de catarata e estão dispostos a experimentar uma proteção retiniana maior do que a fornecida por outras lentes intra-oculares.
A incorporação de protetores contra radiações às lentes intra-oculares ocorre desde o início da década de 80, quando ficou evidenciado que os raios ultravioleta agridem a retina e, provavelmente, contribuem para acelerar a progressão da Degeneração Macular Relacionada à Idade (DMRI). O cristalino humano, com o decorrer da idade, torna-se mais amarelo e passa a “filtrar” os raios ultravioleta e os raios azuis que atingem a retina. A nova lente da Alcon também tem essa coloração amarelada, semelhante ao cristalino não opacificado de uma pessoa com aproximadamente 53 anos de idade.
Um novo vilão? De acordo com o oftalmologista Fernando Cançado Trindade, professor adjunto e chefe do Serviço de Catarata do Hospital São Geraldo da UFMG, em Belo Horizonte, a luz visível tem comprimentos de onda de 400 a 760 nanômetros, a radiação infravermelha acima de 760 nm e a ultravioleta abaixo de 400 nm. “A radiação ultravioleta, cuja exposição prolongada favorece o desenvolvimento da DMRI, é subdividida em três faixas: UVA (315 a 400 nm), UVB (280 a 315 nm) e UVC (100 a 280 nm). A camada de ozônio da atmosfera absorve quase toda a UVC e grande parte da UVB. A córnea filtra a UVB. Com o passar dos anos, o cristalino humano apresenta maior bloqueio à radiação UVA e à luz visível e, assim, o cristalino senil protege o olho de forma mais intensa que o cristalino de uma pessoa mais jovem. Geralmente, as lentes intra-oculares têm filtros que bloqueiam a radiação ultravioleta de até 400 nm, mas não oferecem nenhuma proteção para o espectro da luz azul, de 400 a 450 nm, também chamada de radiação infravioleta”, explica Trindade.
Outro oftalmologista mineiro, Márcio Bittar Nehemy, professor adjunto e chefe do Serviço de Retina e Vítreo do Hospital São Geraldo e chefe do Serviço de Retina e Vítreo do Instituto da Visão (BH), afirma que, no presente, não existem estudos clínicos que comprovem eventuais danos da luz azul à retina ou a associação entre a luz azul e a DMRI: “O que existe são estudos comprovando que, quando expostas prolongadamente à luz azul, as células do epitélio pigmentar da retina experimentam apoptose. A exposição das mesmas células à luz verde não causou danos significativos. Estudos realizados em tecidos de cultura, isto é, in vitro, mostram que a lipofucsina, um produto resultante da fototransmissão, acumula-se no citoplasma da célula do epitélio pigmentar ao longo dos anos a ponto de, numa pessoa com 80 anos de idade, cerca de 20% do citoplasma dessas células ser ocupado pela lipofucsina – entre seus componentes existe um que é ativado pela luz azul. Desta forma, existe base racional, teórica, para a suposição que a luz azul possa facilitar a apoptose da célula pigmentar da retina”. Caso essa suposição esteja correta, uma lente intra-ocular que filtre a luz azul passa a ser uma necessidade de saúde ocular, uma vez que, por outro lado, as pessoas geralmente vivem e ficam ativas por mais tempo depois da cirurgia de catarata e estão cada vez mais expostas a radiações de luz azul, naturais ou artificiais.
Pesquisa no Brasil Dez centros oftalmológicos brasileiros participaram da pesquisa clínica da Alcon sobre a lente intra-ocular AcrySof Natural, iniciada em outubro de 2002 e concluída em janeiro de 2003. Para Hamilton Moreira, professor adjunto da Universidade Federal do Paraná e presidente da Soblec, esse estudo multicêntrico serviu para afastar algumas dúvidas em relação à nova lente: “A primeira pergunta que me veio à mente foi se a sensibilidade de contraste proporcionada pela lente AcrySof Natural seria a mesma das lentes incolores. Aparentemente sim, já que estudos realizados no exterior e as pesquisas no Brasil não demonstraram diferenças de sensibilidade de contraste ou percepção de cores”. O oftalmologista, entretanto, ressalta que a medida da percepção de cores merece estudos mais profundos, pois a sutileza dessa percepção tem um grande componente subjetivo.
Bittar Nehemy confirma as palavras do colega paranaense e acrescenta que, até o presente, o que se observou foi uma excelente tolerância do paciente, ausência de queixas referente à sensibilidade ao contraste, visão de cores e, na grande maioria dos pacientes, o resultado funcional é muito bom, semelhante ao obtido com outras lentes. Fernando Cançado Trindade, que acompanhou o implante de 13 dessas lentes, confirma que não foi possível observar nenhuma diferença com relação às lentes incolores do mesmo material. “A técnica de implantação é idêntica e existe uma pequena vantagem de ser mais fácil de visualizar dentro do cartucho, durante a injeção, uma vez que a nova lente é amarelada. Clinicamente não existe diferença alguma, a não ser a tonalidade discretamente ‘ictérica’ da lente AcrySof Natural à biomicroscopia. Os pacientes não fizeram referência a diferenças quantitativas e qualitativas da visão em relação à Acrysof incolor”, afirmou.
Os três oftalmologistas são unânimes: ainda não se sabe se o benefício trazido pela lente é real ou não. É mais uma alternativa à disposição de médicos e pacientes. Para Hamilton Moreira, a AcrySof Natural talvez seja mais positiva para pacientes jovens, para os portadores de catarata congênita ou para os que se submeterem a cirurgia faco-refrativa, uma vez que a proteção utilizada pelo filtro pode ser utilizada por muitos anos, opinião compartilhada por Trindade, que também considera que o produto pode ser melhor para os habitantes das regiões tropicais, onde a exposição solar é maior.
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Referência
Saiba quais são os centros que participaram dos testes da Lente Intra-Ocular Natural e seus respectivos responsáveis:
Unicamp - Carlos Eduardo Leite Arieta USP- Newton Kara José Junior UFMG (catarata) - Fernando Cançado Trindade UFMG (retina) - Marcio Bittar Nehemy Universidade Gama Filho - Armando Stéfano Crema UFPR - Hamilton Moreira FAV - Marcelo Ventura UFRN - Marco Rey IMO - Virgílio Centurion UNIMES - Walton Nosé
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As características da Lente AcrySof Natural
• Dobrável de acrílico • 13 mm de tamanho total • 6 mm de zona óptica • Peça única • Modelo SN60AT • Dioptrias: +6 a +34
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