Nós, educadores, disciplinamos profissionais de saúde durante várias décadas. Alcançamos a excelência em subespecialidades e hoje seguimos processos altamente definidos, que permitem a propagação da informação validada de modo relativamente constante.
Tais procedimentos salvam várias vidas e permitem a organização em instituições, com organogramas funcionais. Cada um no seu quadrado, se reportando para cima, pedindo relatórios para baixo.
O modelo ainda vigente persegue certificações, que garantem a reprodutibilidade da máquina. São ações sem dúvida fundamentais para MANTER o bem-estar, mas aplicadas em área excessivamente extensa, se transformam em veneno para a evolução.
Cada vez mais ouvimos que “essa não é minha função”. Com isso inchamos as máquinas estatais e privadas com peças específicas. Muito eficientes naquela função limitada. Nada úteis na transformação e nem no aumento de eficiência.
Conseguimos um exército obediente, que sabe muito bem que “quem pode manda e quem tem juízo obedece”. A desobediência dos jovens talvez seja uma evolução darwiniana que tenta fugir dessa sina.
Estou chefe há vários anos e entendi que somos cobrados como ordenadores, que têm de se comportar como tal, pois sem essa ação a máquina toda emperra. De preferência um chefe deve ser temido não somente por ameaças, mas por ações que demonstrem sua potencial força destrutiva.
Chamo isso de arrasto, mas não vou ficar falando disso, reclamando. Quero chamar atenção para a ponta da lança. A que tem como função quebrar o atrito, e que leva consigo o restante da flecha. No futebol falaríamos do camisa 9, o que finaliza, que marca o gol.
Especificamente chamo para a reflexão crítica de um modelo onde formamos e avaliamos (punindo ou valorizando) recrutas na cadeia de comando, com “job description” e metas. Treinamos e reproduzimos ações até a “perfeição”. Simuladores cirúrgicos, capsulorexis perfeitas, domínio completo de regras (e seus subterfúgios). A regulação agradece, mas a sociedade pede mais.
Precisamos, além de chefes e comandados bem treinados e obedientes, de líderes. De crianças, jovens, adultos ou idosos com proatividade. Pessoas que não precisem ser lembradas do que têm a fazer, pois o que têm a fazer foi pensado em parte por elas mesmas. Gente que não chegue no local de trabalho perguntando “o que tem para hoje”, pois é ela que faz parcialmente sua agenda.
Escolas modernas já colocam ênfase nessa competência a ser adquirida, e acreditam que existem recursos pessoais em todos, para acender essa chama. O comprometimento e a persistência ajudam a chegar até o final do processo, mas é o conhecimento da capacidade própria que gera o campo de energia positivo, e faz com que o atrito seja desprezado, criando aquele efeito WARP que assistimos nas Jornadas rumo às Estrelas.
Esse empoderamento e reconhecimento tem sido o mote de novas técnicas de educação, como as propostas dos clubes REDX, do MIT (http://redx.io/), Beinprosone do Colégio Bandeirantes (https://www.facebook.com/beinprosone/) e MedHacker, da UNIFESP (http://eventos.medhacker.com.br/events/MH-00007).
Nesses exemplos, processos de BrainStorms (ou em bom português, o “Toró de ideias”) recolhem contribuições de todos, o caráter indisciplinar (ou se quiserem multidisciplinar) demanda a abertura de novos canais de comunicação, o foco em projetos mantém a atenção e demanda organização, e os “Pitch” finais (apresentação plenária) dão amostras de que os gols estão mais próximos do que se pensava inicialmente.
Todos são responsáveis e capazes em certa medida, e somente o agrupamento, com direção, leva ao resultado final. A liderança não é confundida com o cronograma. Todos estão treinando sua liderança. Todos sabem o que deve ser feito e farão seu máximo para conseguir, em grupo, alcançar a meta.
Os projetos próprios, os motivos, são uma ótima desculpa para se iniciar. A partir dessa identificação, o atrito passa a ser tolerável, pois na verdade cada vez mais importante, quanto mais a velocidade aumenta; mas a ponta da lança foi concebida e vai ser usada para isso, para quebrar esse paradigma, e fazer o que a natureza nos cobra: evoluir.
Técnicas de liderança são propagadas em toda banca de jornal, mas que tal procurar dentro de cada um, o que move. Não são técnicas e nem comportamentos a serem treinados, mas encontrar a energia interna do que faz sentido, do espaço onde nos sentimos bem e, principalmente, aprendendo e mudando.
Líder não tem idade, líder é atitude. É ter e passar confiança de que o porto será alcançado.

Paulo Schor*Paulo Schor é chefe do Departamento de Oftalmologia da Escola Paulista de Medicina com atuação em óptica cirúrgica.

Dúvidas, críticas, sugestões, fale comigo! Pontodevista@universovisual.com.br