A experiência de nosso "irmão” mais velho: a oncologia

O processo de fusões e aquisições que está começando agora no mundo da oftalmologia tem uma experiência mais antiga na oncologia, e que muito pode nos ensinar.
Conversei com um querido amigo meu, famoso oncologista, que começou sua empresa nos anos 80 com um sócio e em alguns anos se tornaram cinco sócios, sendo três principais, e com três endereços em São Paulo ocuparam um lugar de destaque no mundo da oncologia.
Em 2010 eles foram abordados pelo Banco Pátria, que fez até due diligence, mas sua oferta foi muito aquém do que os sócios acreditavam ser o justo. O negócio não foi para frente com eles e o próprio Pátria acabou não entrando no mundo da oncologia.
Em 2012 formou-se o Grupo Oncoclínicas, liderado pelo Fundo Victoria, e pelo oncologista Bruno Ferrari, que depois teve a entrada do Banco Goldman Sachs.
Esse grupo foi liderado por Rafael Mendes do Fundo Victoria e hoje tem como presidente Luis Natel, ex-executivo da área de diagnósticos do Hospital Israelita Albert Einstein, onde ele levantou o faturamento de diagnósticos de 100 milhões de reais para 1,2 bilhão de reais.
Em 2012, o Grupo Oncoclínicas comprou 51% da empresa do meu amigo. E ele e seus quatro sócios ficaram na época com 49%. Posteriormente alguns médicos preferiram vender mais para o Grupo Oncoclínicas, e hoje os sócios têm por volta de 30% e o Grupo Oncoclínicas, 70%.
O único médico na administração é Bruno Ferrari, que atua na posição de presidente do Conselho, mas os cargos da gestão do dia a dia estão totalmente nas mãos de profissionais do mundo dos negócios e não da medicina.
Os minoritários têm a opção de put. Se quiserem, até novembro de 2017, quando completará cinco anos da compra, eles terão a opção de trocar suas ações por ações da Holding, que pretende em 2018 abrir o capital por um IPO (Initial Public Offering). Ou eles poderão vender suas ações e receber em dinheiro por valor estipulado em 2012, na hora da compra dos 51%. Sem nenhuma cláusula de sucesso.
Hoje o Grupo Oncoclínicas possui 50 clínicas em 11 Estados: SP, PE, PB, SE, BA, ES, RJ, DF, MG, PR e RS.
A empresa do meu amigo, que em 2012 faturava 40 milhões de reais por ano, fatura hoje 120 milhões de reais e o Grupo Oncoclínicas, que em 2016 faturava 700 milhões de reais, espera faturar 1 bilhão de reais em 2017 e abrir o capital em 2018.
Seus principais fornecedores são: Roche, Novartis, Merck, Bristol, AstraZeneca, Janssen, Sanofi, e se antes um comprador da empresa do meu amigo falava com um representante de vendas da indústria farmacêutica, hoje o presidente da Oncoclínicas, Luis Natel, fala diretamente com o presidente da Roche e consegue grandes descontos para o grupo – que atualmente compra 15% de toda a quimioterapia do mercado nacional.

Várias foram as vantagens percebidas pelos vendedores:
1 – Tiraram dos médicos vendedores a carga empresarial que tinham, podendo focar apenas na medicina;
2 – Profissionalizaram a empresa;
3 – Centralizaram em Belo Horizonte todos os trabalhos burocráticos e que poderiam servir as 50 clínicas;
4 – O poder de compra ficou muito maior com descontos significativos da indústria;
5 – Ganharam escala;
6 – Toda a área de compliance e suas políticas foram centralizadas.

Desvantagens:
1 – Perderam totalmente o controle sobre o negócio da clínica;
2 – O que o fundo decidir, está decidido.

A margem da clínica, que era por volta de 23%, continua mais ou menos igual, mas a escala cresceu muito de 40 milhões para 120 milhões hoje. Porém, esse ganho de escala não irá beneficiar os vendedores na saída (em novembro de 2017), pois o valor já está prefixado.
Hoje, a grande dúvida que eles têm, com a ajuda de consultores financeiros do mercado de M&A ou Fusões e Aquisições, é saber se vale mais a pena vender as ações que eles ainda têm em novembro e ponto final, ou correr o risco de trocar por ações da holding. Dúvida cruel.
Quando perguntei ao meu amigo se venda é boa para quem tem mais idade e está perto de sua aposentadoria, respondeu que, não só para quem está perto de aposentaria, mas também para os jovens em começo de carreira, pois com essa nova situação do mercado, mesmo os jovens oncologistas não terão espaços nem margem para começar uma carreira de sucesso como eles tiveram no passado.
Recentemente o Grupo Oncoclínicas reuniu um grupo de oftalmologistas de cinco Estados para propor um esquema similar.
As cartas estão lançadas.

*Flavio Mendes Bitelman é publisher e empresário
fbitelman@universovisual.com.br