Antigamente pouco se escutava falar em choque de gerações. As mudanças não eram tão rápidas e por isso era possível perceber novos perfis de gerações a cada 25 anos. Hoje em dia a história é bem diferente. Com o mundo globalizado e os avanços tecnológicos, as mudanças aparecem em um prazo bem mais curto de tempo. Especialistas têm apontado novos perfis a cada dez anos. E em meio a tantas mudanças, empresas tentam se adaptar às diferentes gerações promovendo uma adequada interação entre elas e com gerenciamento de conflitos.
Inicialmente vamos tentar compreender melhor as diferentes gerações com a ajuda da diretora administrativa da Sociedade Brasileira de Administração em Oftalmologia (SBAO), consultora de marketing médico e mestre em Administração de Empresas pela PUC-Rio, Roberta Fernandes.
“As gerações X, Y e Z representam grupos com comportamentos específicos:
➢ A geração X é formada pelos filhos do chamado “Baby Boom”, entre a década de 20 e a década de 40, quando ocorreu aumento significativo na taxa de natalidade dos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. Essa geração inclui aqueles que nasceram no início dos anos 60 até o final dos anos 70. Essa geração cresceu e teve ideais, mas se dedicou ao lado profissional, valorizando o trabalho e a estabilidade financeira. Eles acompanharam o aparecimento do computador pessoal, a internet, o celular, etc. Tentam acompanhar as rápidas mudanças do mundo ao seu redor. Essa geração buscou a individualidade sem a perda da convivência em grupo, rompeu com as gerações anteriores e seus paradigmas, tem mais consciência sobre seus direitos e se preocupa com as gerações futuras;
➢ A geração Y, também chamada geração do milênio, nasce num momento de revolução tecnológica, tendo novos hábitos voltados à comunicação e obtenção da informação instantânea. Eles estão sempre conectados, preferem computadores a livros e estão sempre em busca de novas tecnologias;
➢ Já a geração Z são os nascidos entre 1992 a 2010 e está ligada intimamente à expansão exponencial da internet e dos aparelhos tecnológicos. As pessoas da geração Z são conhecidas por serem “nativas digitais”, pois estão desde pequenas familiarizadas com a internet e todas as suas possibilidades, com o compartilhamento de arquivos constantes, com os smartphones, tablets, e principalmente estando sempre conectadas e não conseguem imaginar um mundo sem computadores. É uma geração caracterizada pela ansiedade, pouco traquejo para relações sociais, mas com grande necessidade de interação e exposição pela internet”.

Tudo junto e misturado
Diferentes estudos apontam que a geração X tem idade em torno de 32-51 anos, a geração Y entre 20-31 e a geração Z entre 14-19 anos. Temos também a geração Baby Boomer (anterior à geração X), que inclui pessoas de 52-68 anos. A idade pode variar um pouco de estudo para estudo.
Existem também alguns dados que mostram algumas particularidades desses grupos, por exemplo: cerca de 55% da geração Z pratica atividade física vs. 30% da geração X; em torno de 18% da geração X é fumante vs. 5% da geração Z. Quanto aos perfis nas redes sociais, 70% da geração X e quase a totalidade da geração Z: 97%. Esses dados também variam de estudo para estudo, porém com pequenas variações. Mas, de fato, os estudos mostram que pessoas mais velhas têm mais consciência quanto a importância da atividade física, por exemplo, enquanto os mais jovens passam muito mais tempo no computador, tendendo ao sedentarismo. Entretanto, pessoas mais jovens estão bem esclarecidas sobre o risco que o cigarro traz para a saúde.
Mas e no mercado de trabalho, como lidar com perfis tão diferentes? Como gestores podem fazer com que haja uma boa interação entre gerações tão distintas? De acordo com Roberta é preciso respeitar as características de cada geração, entendendo seus diferentes comportamentos e valores sobre o trabalho. “A geração X não gosta de ser gerenciada nos mínimos detalhes, enquanto a geração Y gosta de receber as orientações, instruções específicas para realizar tarefas. Ou seja, enquanto o X quer saber “como”, o Y quer saber “por que”. A geração X valoriza o espírito de equipe, cooperação e comprometimento, a geração Y prefere tomar a decisão sozinha, tomando a decisão independente, mais interessada em trabalhar por projetos que tenham algum valor não tangível do que, necessariamente, construir uma carreira sólida. Já a geração Z acredita em equipes criativas e amplas. Assim, as gerações mais velhas geralmente vêm os mais jovens como desleais, desinteressados e que não têm uma forte ética de trabalho, enquanto os jovens sentem que precisam cuidar de seus próprios interesses e estão menos dispostos a sacrificar suas vidas em prol da empresa. Compreender os diferentes conjuntos de valores pode ajudar para que cada geração entenda melhor a outra”, explica.
Roberta salienta que na área oftalmológica as diferenças ficam aparentes em situações do dia a dia, como o uso de registro em papel ou prontuário eletrônico, sendo que uma pilha de papéis é comum à mesa dos médicos mais experientes. “Afinal, é nele que prescrevem receitas, anotam o histórico dos pacientes e agendam os retornos. Os mais jovens usam a tecnologia com facilidade, desde aplicativos para arquivar exames e dados e o prontuário eletrônico que agiliza a gestão da clínica. Informações como agenda e contatos telefônicos ainda estão em caderninhos de papel para a geração mais velha, enquanto a mais nova é high tech e trabalha via app usualmente. O relacionamento com os pacientes para os mais experientes ainda tem como principal canal o telefone, já os mais novos entendem que as redes sociais também podem ser aliadas nesse relacionamento, levando conteúdo e oferecendo tarefas como marcação e confirmação de consultas”, conta.
Ainda em relação à área oftalmológica, segundo a pesquisa Demografia Médica no Brasil 2015, desenvolvida pela Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), com apoio do Conselho Federal de Medicina (CFM) e Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), a distribuição dos médicos por faixa etária ficou em 55.504 profissionais com menos de 29 anos, 105.680 entre 30 e 39 anos, 71.810 entre 40 e 49 anos, 69.911 entre 50 e 59 anos, 58.658 entre 60 e 69 anos e 26.638 com mais de 70 anos. Logo, a maior parte dos médicos são representantes da GERAÇÃO X”, revela.
Georgia Navarro, gerente de Recursos Humanos (RH) de uma indústria farmacêutica, concorda que hoje o perfil dominante no mercado de saúde ainda é a geração X, porém destaca que a geração Y também é bem representativa. A gerente de RH lembra que a geração Z também se faz presente nos estagiários e nos profissionais mais jovens. “A entrada da geração Z tem mudado bastante a dinâmica das organizações”, ressalta.
“As pessoas da geração X são mais hierárquicas e mais formais na forma de se comunicar. As pessoas da Y são mais informais, colaborativas e trabalham muito bem em equipe. A geração Z é multitarefa, ansiosos, pois estão acostumados a ter todas as respostas na hora, por causa da tecnologia presente hoje em dia. Importante mencionar que não podemos generalizar essas características. Mas são as características de como essas gerações foram criadas e se formaram”, explica Georgia.
Um importante aspecto considerado por Georgia é que o reconhecimento desses perfis é fundamental na decisão de contratação, ou seja, pode ser uma ferramenta útil para definir qual profissional é mais indicado para determinada vaga. “Ao contratar, analisamos cuidadosamente o perfil da vaga, comportamental e técnico, e na hora de decidir levamos em consideração essas características pessoais, para ter a pessoa certa, no lugar certo”, afirma.
Quanto à integração entre as diferentes gerações, Georgia enfatiza que a primeira atitude é o respeito. “Respeitar quem é o outro no ambiente de trabalho é fundamental. Além disso, tentar entender como o seu colega funciona. Cada vez mais as organizações falam sobre isso e criam consciência das características das gerações para que o ambiente de trabalho flua melhor. Ainda assim, acredito que falta muito conhecimento para que todos se entendam e consigam contribuir com seu melhor. Essas características se completam e podem ser muito poderosas se todos trabalharem bem”, pontua.
Por fim, a diretora da SBAO dá algumas dicas para integrar melhor essas gerações. “Quando funcionários de duas ou mais gerações estão envolvidos em um conflito no ambiente de trabalho, eles podem estabelecer um bom diálogo compartilhando suas opiniões. Os mais velhos podem sentir a falta de formalidade e o jeito, talvez, ofensivo dos Z, enquanto os jovens podem se sentir desrespeitados se os X não valorizam suas percepções e insights. É válido ter grupos distintos criando quadros com pontos de vista que mais valorizam. Funciona como um lembrete visual a todos e mostra, de maneira clara, a diferença entre as gerações, além de ser uma atividade divertida que não julga se são errados ou certos os valores de cada pessoa, apenas respeitando-os. É importante usar diversos meios de comunicação, desde o comunicado por escrito formal até as mensagens via WhatsApp, assim todas as gerações são contempladas. Restringir a apenas um meio pode afastar alguém que tenha uma abordagem diferente. Além disso, individualizar a abordagem e descobrir o que funciona com cada pessoa. Assim a motivação também será personalizada, enquanto as gerações mais velhas tendem a ser motivadas pelo trabalho em si, os jovens muitas vezes procuram mais orientação, feedback e reconhecimento. Cada geração possui lições valiosas para ensinar umas às outras. Os X têm a experiência e “know how” que os jovens precisam. A geração Y é conhecida por sua lealdade e habilidade de mediação. Já a geração Z está mais antenada ao ambiente de trabalho do futuro, ao marketing e às tendências de mercado. O caminho é valorizar o melhor de cada geração, utilizando as habilidades de cada um da melhor forma possível”, conclui.