Médicos que entraram na residência em oftalmologia em 2002, ano do lançamento da Universo Visual, contam suas trajetórias e desafios que encontraram na carreira nesse período

A Universo Visual chega ao seu número 100. Sua primeira edição saiu em fevereiro de 2002. E para falar sobre o que mudou nesse período, conversamos com médicos que entraram para o mundo da oftalmologia há 15 anos, assim como nós. Que trajetórias profissionais tomaram? Que desafios encontraram? Que mudanças no mercado vivenciaram?
Para um jovem médico recém-formado, as possibilidades de trajetórias profissionais são inúmeras, e cada uma é desafiadora a seu modo. Mudar de cidade, seja para prosseguir os estudos ou para estabelecer-se profissionalmente, pode ser uma oportunidade.
Para Luiz Taranta, que em 2002 entrava para residência em oftalmologia na USP de Ribeirão Preto, a ideia de estabelecer-se em outro Estado surgiu por acaso. “Enquanto fazia doutorado, conheci mais a fundo um colega de residência, Marco Bonini Filho. Logo descobrimos que tínhamos um grande amigo em comum. O uísque Jack Daniels. E em uma das reuniões onde os três estávamos presentes, Marco me convidou para conhecer sua cidade, Campo Grande (MS)”, conta Taranta. A capital sul-mato-grossense agradou ao oftalmologista: “A cidade me encantou. É um lugar calmo, onde as pessoas ainda almoçam em casa e têm tempo para uma conversa, acompanhada de um café ou tereré”. Hoje, Taranta pôde realizar seus dois sonhos: montou sua própria clínica e é professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.
A mudança pode ser para mais longe. Formada oftalmologista e doutora pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp), Karolinne Maia Rocha foi para o EUA para fazer seu pós-doutorado na Cleveland Clinic. Depois foi para a Emory University. Nesse período ficou noiva e resolveu mudar-se em definitivo para os EUA. Estabelecer-se em outro país exigiu paciência. Foi necessária uma série de provas para validar o diploma de medicina, fazer um ano de internato e refazer a residência em oftalmologia no país. “Foi o momento mais desafiador. Já com um doutorado e depois de tantos anos exercendo a oftalmologia, voltar para a base e ter que passar um ano no internato”. Hoje Rocha é professora assistente e diretora do setor de córnea e cirurgia refrativa na Medical University of North Carolina.
Para João Marcos Atique, que também se formou oftalmologista na USP de Ribeirão Preto, o destino também reservou algumas surpresas, ainda que a mudança de cidade não tenha ocorrido. “Quando terminava a residência, havia uma proposta de trabalhar em Florianópolis (SC) com um primo que também é oftalmologista, no início de 2005. Mas logo no fim de 2004 as portas se fecharam na cidade”, conta. Mas a frustração durou pouco. “Na mesma semana recebi um convite para trabalhar aqui em Ribeirão Preto mesmo. Quem crê em Deus, entende que essa foi uma resposta muito grande Dele.”
Após a residência, tendo permanecido em Ribeirão, Atique seguiu direto para o doutorado, também na USP. Deu aulas durante cinco anos na Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp) e foi responsável, entre 2009 e 2016, pelo laboratório de lente de contato do Hospital das Clínicas. Hoje está somente em consultório.
Prosseguir os estudos e buscar um doutorado é uma opção para muitos. Alexandre Ventura, oftalmologista do Recife (PE), que em 2002 entrou para a residência na Fundação Altino Ventura, seguiu a recomendação de seu pai, também oftalmologista, que repetia o conselho recebido de seu mestre Hilton Rocha (1911-1993). O professor mineiro sempre dizia que para que uma pirâmide possa ser alta, precisa de base larga, sugerindo que para um oftalmologista ser grande na carreira, precisa de uma sólida formação. Fez fellowship em retina na Universidade de Toronto e em uveítes na Universidade Federal de Goiás. Seguiu para um doutorado em retina na UnB e um pós-doutorado na Cleveland Clinic, nos EUA. “Vi colegas já trabalhando e ganhando dinheiro enquanto eu estava com a cabeça voltada para o estudo, justamente para me tornar um oftalmologista melhor”, justifica.
Para Sonia Hae Sun Lee, oftalmologista que iniciou a residência há 15 anos na Faculdade de Medicina da USP, entrar no mercado de trabalho não foi simples. “Temos certo choque de realidade ao iniciarmos a vida profissional”, afirma. “Confrontamo-nos com dilemas éticos, desafios clínicos e má medicina praticada por muitos. Dá até saudade dos problemas da residência!”, relata Sonia Lee.
Após a residência, Lee passou mais dois anos no Hospital das Clínicas em complementação especializada em retina e fez fellowship na França. Tornou-se sócia de uma clínica com duas colegas da residência, tornou-se médica assistente no Hospital das Clínicas e entrou para a equipe de checkup do Hospital Sírio-Libanês.
Outro momento árduo na carreira de Lee foi abrir um consultório “com todas as dificuldades de não termos nenhuma experiência administrativa, o desafio de fortalecer a união e parceria no caso de uma sociedade, e ter a persistência de insistir nessa empreitada”, afirma a oftalmologista.
Embora muitos médicos sonhem em se tornar empreendedores, a ausência de uma formação voltada para a gestão de um negócio costuma ser a maior dificuldade. Luiz Taranta também enfrentou esse problema. “Abrir minha própria clínica exigiu planejamento, investimento e perseverança, além de conhecimentos sobre administração e gestão e constantes adaptações às novas situações”, conta.

Mudanças
As mudanças tecnológicas desde 2002 foram grandes e rápidas. “Eu comecei a fazer cirurgia de catarata com a técnica extracapsular”, relembra Alexandre Ventura. “E você tinha que ser treinado para fazer uma bela biomicroscopia de fundo de olho, porque nós não tínhamos OCT”, acrescenta.
Além do OCT, retinólogos contam com equipamentos mais modernos para cirurgia “Na minha residência, a punição para um residente menos dedicado era segurar a lente em uma cirurgia de retina, que durava horas”, diverte-se Luiz Taranta. Hoje, a cirurgia vitreorretiniana tornou-se rápida e segura e muitas vezes sem a necessidade de um auxiliar para segurar a lente.
Para especialistas em córnea, o laser de femtossegundo e os tomógrafos de córnea foram revolucionários, assim como o desenvolvimento do crosslinking. “Antes não tínhamos muita coisa para fazer para prevenir a progressão da doença até que chegasse a estágios muito avançados”, relata Karolinne Maia Rocha.
No mercado de trabalho, por outro lado, as mudanças preocupam os médicos. Hoje há muito mais gente recebendo o diploma anualmente. A abertura de novas residências também aumentou o número de especialistas. “Será que é necessário? Será que vai ter demanda?”, pergunta Ventura.
“Eu tenho percebido uma dificuldade muito maior para o recém-formado em passar na prova de residência, porque a quantidade de pessoas prestando a prova é muito maior que o número de vagas”, afirma João Marcos Atique. O oftalmologista acredita ainda que a abertura indiscriminada de novas escolas estaria afetando a credibilidade dos profissionais médicos. “Percebemos que tem muita gente no mercado, e talvez muita gente sem grande qualificação. Estão acontecendo muito mais erros, a internet tem divulgado muito mais facilmente os erros; então a desconfiança nos profissionais de saúde tem aumentado. Antigamente confiava-se muito mais no médico”, afirma Atique.
O achatamento nas tabelas do SUS e dos planos de saúde relatado pelos médicos também afeta a carreira. Segundo Alexandre Ventura, “o preço da tabela de pagamento do SUS para procedimentos de cirurgia é o mesmo desde a minha entrada na minha residência. São 15 anos sem alterações. Já era baixa e está pior por conta da inflação desse período”. Ventura reclama ainda da crescente judicialização, devido a operadoras que recusam demais procedimentos. De acordo com Karolinne Rocha, o problema não é exclusivo do Brasil. A mesma dificuldade é enfrentada nos EUA, onde trabalha.
O contexto da crise atual também gera preocupações. Bruno Fontes, que cursou residência e doutorado na Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e está estabelecido no Rio de Janeiro, afirma que o momento mais desafiador na carreira está sendo este. “O Rio é uma cidade que sofreu mais que outras no país com a crise. O desemprego é muito grande, a violência aumentou, e a instabilidade é crescente”, afirma. Para Fontes, o efeito da inflação foi devastador. “A inflação médica é maior que a média. Isso comprimiu as margens de lucro e impactou nosso investimento em tecnologia.” Fontes lamenta que nessa situação quem mais sai perdendo é o paciente: “Você vê uma determinada patologia, sabe o que tem à disposição para tratar, mas não consegue botar em prática porque o SUS não tem ou porque o paciente não pode pagar. A gente fala que saúde não tem preço, mas tem custo. E um custo muito alto”.
Outra mudança apontada pelos oftalmologistas é uma maior “mercantilização” da medicina. Ventura se queixa do assédio de fundos de investimentos que querem “comprar a oftalmologia”. São fundos que estão interessados em adquirir clínicas oftalmológicas e implantar um novo modelo de negócios, oferecendo serviços baratos para planos de saúde, o que está um mercado altamente competitivo e voraz.
Nesse cenário incerto, os oftalmologistas com 15 anos na estrada deixam seus conselhos para médicos que estão hoje na residência. “Dediquem-se, pois sempre haverá espaço para quem é bom. Não tenham pressa, pois os resultados vêm com o tempo, como consequência do trabalho bem-feito” aconselha Luiz Taranta.
Já Bruno Fonte recomenda profissionalismo. “Seja ético, pontual, respeitoso, educado e competente. Ser profissional é essencial na profissão médica, pelo cuidado que você está tendo com o paciente, que está fragilizado por conta de uma patologia.”
Sonia Lee repassa o conselho recebido pelo seu mestre, o Prof. Newton Kara-José: “aproveitem cada dia da residência para aprender o máximo possível. Não desperdicem um só dia. Acreditem, aprendemos com todos os casos, os bons, os maus, e tudo é uma vivência para o mundo lá fora”.
Para Karolinne Rocha, o segredo é você realmente ser apaixonado pelo seu trabalho e assim o profissional pode chegar onde quiser na carreira. A frase que ela sempre repete a seus residentes é “Sky is the limit”.