Como o recém-eleito presidente do CBO, José Augusto Alves Ottaiano, conduzirá a maior entidade da oftalmologia brasileira

Favorecer o uso da informática na transmissão do conhecimento e nas atividades de educação médica continuada, tentar conciliar a preocupação com a saúde pública ocular com a qualidade do atendimento oftalmológico e estreitar ainda mais o relacionamento com as entidades médicas e oftalmológicas de todo o Brasil serão algumas das balizas que José Augusto Alves Ottaiano utilizará nos próximos dois anos a partir de 2 de janeiro de 2018 como presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO), cargo para o qual foi eleito no último Congresso Brasileiro de Oftalmologia.
Ottaiano é Professor Titular de Oftalmologia da Faculdade de Medicina de Marília – FAMEMA (SP) desde 1983. Fez Mestrado e Doutorado na Universidade Federal de São Paulo/Escola Paulista de Medicina (UNIFESP/EPM) e fellowship em Córnea no Kellogg Eye Center, da Universidade de Michigan (EUA). Foi vice-diretor da FAMEMA em duas ocasiões e seu diretor-geral de 2009 a 2013. No CBO, sua atuação esteve ligada primordialmente à Comissão de Ensino durante muitos anos e, no último biênio, ocupou as posições de vice-presidente e de coordenador da Comissão de Ensino. Nesta entrevista, que classificou de “essencialmente filosófica”, o novo presidente do CBO fala de seus planos e projetos, que terão importância para a Oftalmologia brasileira, para os segmentos econômicos e sociais que gravitam em seu entorno e para os milhões de brasileiros que esperam e merecem melhor assistência oftalmológica.

Universo Visual – O que pretende fazer nos próximos dois anos?
José Augusto Alves Ottaiano – Vou continuar a contribuir para a melhoria da saúde ocular da população brasileira e com o aprimoramento da Oftalmologia como presidente do CBO. Terei como premissas básicas a prioridade do ensino, a defesa das prerrogativas profissionais do médico oftalmologista, a valorização da Oftalmologia na saúde suplementar, o diálogo e estreitamento do relacionamento com entidades médicas, autoridades e empresas e a disposição de defender, em todas as ocasiões, o credenciamento universal.

UV – Comecemos pelo ensino.
Ottaiano – É sem dúvida a área com a qual me sinto mais identificado. O CBO tem atuação exemplar no ensino, seja na edição de materiais didáticos, como a Série Oftalmologia Brasileira e as revistas Arquivos Brasileiros de Oftalmologia e eOfalmo, seja na elaboração e aplicação da Prova Nacional de Oftalmologia ou no credenciamento e acompanhamento dos Cursos de Especialização. Vamos manter e continuar aprimorando tudo isso e vamos tentar fazer muito mais. Além disso, pretendo estimular cada vez mais o uso da internet e dos recursos digitais para o ensino da Especialidade. Acredito que, com a informática, a divulgação do conhecimento pode ser mais simples, democrática e acessível, sem perder o rigor necessário para o aprendizado de quem vai cuidar da saúde das pessoas.

UV – E quanto à defesa das prerrogativas profissionais dos médicos oftalmologistas?
Ottaiano – Não é segredo que existem setores querendo que a prescrição de lentes possa ser feita por pessoas sem formação médica, ligadas ao comércio óptico. Vamos continuar usando todas as armas jurídicas e políticas contra esta ameaça. Pretendemos, também, aliar esta luta com ações que reforcem a assistência oftalmológica na atenção básica e na saúde pública. É preciso ressaltar que, ao contrário do que alguns falam, não se trata de reserva de mercado, mas de preocupação com a saúde dos pacientes e da população.

UV – Saúde Suplementar?
Ottaiano – O CBO vem fazendo excelente trabalho neste campo, com uma comissão específica, que vai ser continuado e aprimorado. A Oftalmologia e toda a Medicina vêm sofrendo constantes investidas do Poder Econômico e nada indica que tais ataques vão diminuir, antes pelo contrário e, por isso, vamos dar atenção especial a este campo. Temos que levar em conta que a separação em tópicos tem mais caráter didático, para fins de exposição. Na realidade, todos estes aspectos são interligados e se influenciam mutuamente. Assim, os outros pontos que enumerei, o relacionamento e o diálogo com todos os envolvidos, direta ou indiretamente com a Oftalmologia e a Saúde Ocular e a atuação em prol do credenciamento universal, também são marcas registradas do CBO que pretendo intensificar. Ressalto mais uma vez que são ações coordenadas em que a entidade, sua diretoria, as diferentes comissões e o Conselho de Diretrizes e Gestão (CDG) vão procurar, sempre, o benefício do médico oftalmologista, da Especialidade e, principalmente, do paciente.

UV – E como o CBO pode trazer esses princípios gerais à prática?
Ottaiano – Aliando ensino de qualidade, disponibilizando várias alternativas para que o médico oftalmologista possa ter sua educação continuada, utilizando todos os meios disponíveis para levar a Oftalmologia à Atenção Básica, favorecendo o avanço científico e a integração de nossa Oftalmologia com a ciência mundial, valorizando os procedimentos e a atuação do médico oftalmologista. Pretendo dialogar muito com os cursos de especialização, para verificar a possibilidade de incentivar os cursos de mestrado e doutorado e abri-los para colegas de regiões onde eles não existem. Também pretendo estudar, junto com os colegas, a realização de ações que aliem a refração em grande escala com as atividades de ensino, contribuindo para reduzir a fila de espera e a demanda reprimida que existe no atendimento oftalmológico básico. Nossa saúde pública está passando por uma crise profunda, não tenho qualquer ilusão sobre isso, mas temos que utilizar as armas que temos, tais como o prestígio do CBO e a estrutura de funcionamento e a experiência que a entidade adquiriu ao longo de décadas para tentar reverter a visível deterioração da assistência pública no que estiver ao nosso alcance, com prudência, mas com firmeza.

UV – E o associado do CBO?
Ottaiano – Como toda entidade social, o CBO também tem grande problema de comunicação, pois são muitos os médicos oftalmologistas que não compreendem plenamente o papel e a atuação da entidade. Vamos procurar sanar esta lacuna mostrando que a atuação do CBO na defesa profissional, no ensino e na educação médica continuada, na manutenção de uma estrutura logística necessária para os trabalhos do conselho, na realização de um congresso das dimensões do Congresso Brasileiro de Oftalmologia e nos outros vários campos de atuação gera benefício para a Oftalmologia brasileira, para aqueles que a praticam e para os pacientes.

UV – Qual a sua ideia sobre grandes grupos financeiros que estão investindo pesadamente na Oftalmologia, com a compra de clínicas e hospitais e a formação de grandes consórcios, que eles chamam de processo de consolidação do mercado e que pode ser encarado como processo de oligopolização?
Ottaiano – Muita preocupação. Estamos assistindo a uma monetização inédita da atividade oftalmológica, que talvez beneficie parte dos médicos envolvidos, mas talvez prejudique irremediavelmente a grande maioria dos colegas. O CBO está atento e nossa ação será no sentido de proteger a maior parte dos médicos oftalmologistas. Sabemos que o sistema econômico incentiva a concentração e a busca do lucro, mas como entidade, o CBO não pode aprovar situações que marginalizem grande parte dos médicos oftalmologistas ou que coloquem a busca do lucro acima da Ética médica. Não estou dizendo que é isto que está acontecendo ou que vai acontecer invariavelmente, só estou dizendo que o CBO está atento e, se necessário, não vai se omitir em mais esta frente. E, mais uma vez, preconizamos o credenciamento universal como antídoto para corrigir eventuais distorções do mercado. Com ele daríamos força para todos e cada um dos 17 mil oftalmologistas do país, que teriam liberdade para escolher o respectivo regime de trabalho que lhes fosse conveniente, e daríamos força aos pacientes.

UV – Palavras finais!
Ottaiano – Vamos ter dois anos de muito trabalho. O diálogo vai ser a marca de minha gestão, como aliás vem ocorrendo há muito tempo no CBO. Vamos procurar integrar toda a atuação do conselho numa grande obra que beneficie a Oftalmologia brasileira, aqueles que a praticam e a população que precisamos atender.

Diretoria CBO 2018/2020
Presidente – José Augusto Alves Ottaiano, de Marília (SP);
Vice-Presidente – José Beniz Neto, de Goiânia (GO);
Secretário-Geral – Cristiano Caixeta Umbelino, de São Paulo (SP);
1º Secretário – Sérgio Henrique Teixeira, de São Paulo (SP);
Tesoureiro – Abrahão da Rocha Lucena, de Fortaleza (CE).
Na mesma eleição, foram escolhidos como membros titulares do Conselho Fiscal da entidade: Alexandre Augusto Cabral de Mello Ventura (PE), Beogival Wagner Lucas Santos (MS) e Carlos Alexandre de Amorim Garcia (RN) e os suplentes Fernando César Abib (PR), Ítalo Mundialino Marcon (RS) e Pedro Carlos Carricondo (SP).
O presidente escolhe os coordenadores e integrantes das Comissões Permanentes, das quais as mais importantes são as Comissões de Ensino, Científica (que, entre outras coisas, elabora a programação dos congressos) e de Saúde Suplementar e SUS.
Outra instância diretiva do CBO é o Conselho de Diretrizes e Gestão (CDG), composto por todos os ex-presidentes da entidade e por quatro membros eleitos pela comunidade oftalmológica com mandato coincidente ao da diretoria. Para o biênio 2018/2019 foram eleitos para o CDG Bernardo Menelau Cavalcanti (PE), Breno Barth Amaral de Andrade (RN), Dácio da Costa Carvalho (CE) e Newton Andrade Júnior (CE). O CDG tem a função de planejar e acompanhar a execução de planos e ações que transcendam ao prazo de uma gestão. A partir de 2 de janeiro de 2018, seu presidente será Newton Kara José (SP).
Nenhum dos cargos da diretoria, das diferentes comissões ou do CDG é remunerado.