Paulo Zantut fala sobre seu estudo experimental sobre os efeitos da inalação da fumaça da queima da maconha por gestantes na retina dos descendentes

O congresso anual da ARVO (Association for Research in Vision and Ophthalmology) foi realizado de 7 a 11 de maio de 2017, em Baltimore (EUA). Trata-se do maior congresso de pesquisa em Oftalmologia do mundo e conta com mais de 11.000 participantes de 75 países. A ARVO é a entidade que congrega os maiores oftalmologistas e pesquisadores do mundo na área da visão.
Neste ano, dentre os mais de 6.000 estudos científicos apresentados, os organizadores do congresso escolheram os três mais interessantes e inovadores para divulgar para a imprensa americana. Um deles foi o estudo que relatou os resultados preliminares da tese de Doutorado do oftalmologista Paulo Zantut, pós-graduando (nível Doutorado) do Departamento de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da USP.
Em entrevista à revista Universo Visual, Paulo Zantut fala sobre o seu estudo e alguns detalhes sobre a Conferênica de Imprensa da ARVO, uma vez que ele foi o primeiro brasileiro a participar deste evento tão importante e que coloca a pesquisa realizada pela Oftalmologia brasileira em destaque no mundo.

Francisco Max Damico

Revista Universo Visual – Antes de falarmos sobre a Conferência de Imprensa, conte-nos sobre o estudo que você apresentou na ARVO 2017.
Paulo Zantut – Nosso estudo é uma colaboração entre a Faculdade de Medicina da USP e a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP. Os resultados preliminares apresentados no congresso da ARVO são parte da minha tese de Doutorado, que é orientada pelos Profs. Drs. Francisco Max Damico (Departamento de Oftalmologia da FMUSP) e Mariana Matera Veras (Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental do Departamento de Patologia da FMUSP). Nas suas várias etapas, o estudo vem contando com a participação de outros pesquisadores, como os Profs. Drs. Paulo Saldiva, Walter Takahashi e Aline Bolzan.
Resumidamente, nós expusemos camundongas grávidas à fumaça da queima de cigarros de maconha por cinco minutos diários durante toda a gestação, simulando o uso recreacional da maconha em humanos. Após o nascimento dos bebês camundongos, nós realizamos tomografia de coerência óptica de domínio espectral (Heidelberg) da retina deles aos 3, 6 e 12 meses de vida. Nossos resultados mostram que os camundongos cujas mães foram expostas à fumaça da maconha durante a gestação tinham a retina neurossensorial significativamente mais fina do que aqueles cujas mães não foram expostas. O afilamento ocorreu tanto na retina externa quanto na interna. Interessantemente, a retina neurossensorial foi ficando cada vez mais fina até a vida adulta dos camundongos, mesmo que eles nunca mais tivessem tido contato com a maconha depois do nascimento. Esses achados sugerem que a exposição intrauterina à fumaça da maconha tem efeitos na retina (que é uma extensão do sistema nervoso central) a curto e longo prazo. Nossos resultados nos permitiram sugerir que os filhos de mães que usaram maconha durante a gestação devem ser acompanhados mais frequentemente pelo maior risco de possuírem alterações visuais clínicas ou subclínicas.

UV – E qual o racional para a pesquisa de alterações retinianas em indivíduos expostos à fumaça da queima da maconha?
Zantut – Vários estudos comprovam a existência de receptores canabinoides em vários tecidos do olho humano, como corpo ciliar, malha trabecular e retina (cones, bastonetes, células horizontais, bipolares, amácrinas e ganglionares). Os receptores canabinoides desempenham papel fisiológico na retina humana: eles parecem estar envolvidos em alguns aspectos do processamento visual e a ativação do sistema endocanabinoide pode levar à proteção das células ganglionares retinianas. No entanto, ainda não se conhecem os efeitos da ativação desses receptores por estímulos exógenos (como o uso da maconha, ainda que de forma recreacional).
Como esses receptores estão presentes naturalmente na retina humana, nós resolvemos estudar quais são os efeitos do uso da maconha sobre a retina humana de camundongos cujas mães foram expostas à fumaça da queima da maconha durante a gestação.

UV – Do ponto de vista epidemiológico, qual a importância do estudo dos efeitos da maconha nos filhos de mães que usaram a droga durante a gestação?
Zantut – O principal componente psicoativo da maconha (o tetraidrocanabinol) pode atravessar a barreira placentária e gerar efeitos adversos no feto. Estudos experimentais comprovam que não há níveis seguros de uso da maconha durante a gestação.
Entre as mulheres gestantes, a maconha é a droga mais consumida durante a gestação. Apesar do conhecimento dos efeitos adversos que o uso dessa droga pode provocar sobre o desenvolvimento fetal e suas consequências na vida adulta, o número de mulheres que consome algum tipo de droga durante a gestação aumentou significativamente nos últimos anos. Em São Paulo, 4% das gestantes usam maconha durante a gestação. Nos Estados Unidos, 7% das gestantes com idades entre 18 e 25 anos usam a maconha em algum período durante a gravidez.
Esses números são considerados alarmantes devido aos potenciais efeitos nocivos (comportamentais e funcionais) que o uso da maconha pela gestante pode acarretar aos bebês, durante a infância e a vida adulta.

UV – Vamos falar especificamente sobre a sua experiência na Conferência de Imprensa da ARVO, um evento que nós sequer conhecíamos aqui no Brasil?
Zantut – A Conferência de Imprensa acontece anualmente durante o congresso da ARVO. Ela é convocada pela Assessoria de Imprensa da ARVO e o objetivo é divulgar as pesquisas em Oftalmologia que eles consideram mais inovadoras e interessantes. A conferência é comandada pelo presidente ou pelo vice-presidente da ARVO. Encontram-se presentes jornalistas americanos da área da saúde e a conferência é transmitida on-line para jornalistas de todo o mundo. A duração é de 45 minutos. Inicialmente, os autores dos três trabalhos escolhidos fazem uma apresentação oral durante dez minutos cada e, em seguida, os jornalistas presentes (e os que se encontram em seus países) fazem perguntas para os autores.

UV – Como foi o processo de seleção dos trabalhos?
Zantut – Vinte dias antes do início do congresso, recebemos um e-mail da ARVO informando que nosso trabalho havia sido escolhido como Hot Topic, ou seja, a ARVO o considerou um dos 2% mais interessantes do congresso. Poucos dias depois, recebemos outro e-mail informando que nosso trabalho era 1 dos 11 mais interessantes e inovadores do ano e pedindo que gravássemos um vídeo de 10 minutos com o conteúdo do trabalho utilizando uma linguagem menos técnica, para que eles pudessem entender melhor a importância do trabalho e dos resultados. Passados mais poucos dias, fomos informados que nosso trabalho havia sido escolhido como um dos três melhores e, portanto, nós participaríamos da Conferência de Imprensa.

UV – Como foi a preparação para a Conferência de Imprensa?
Zantut – Inicialmente, os assessores de imprensa da ARVO (que são pesquisadores com PhD e, portanto, com muita experiência em pesquisa) fizeram uma conferência por telefone conosco. Eles nos explicaram detalhadamente como seria a conferência de imprensa e nos informaram sobre o enfoque bem mais leigo que os jornalistas costumam dar aos trabalhos. Ou seja, nos alertaram que as perguntas não seriam técnicas e provavelmente teriam um componente subjetivo – e até de opinião pessoal – sobre os assuntos. Eles nos alertaram para que evitássemos dar opiniões pessoais e reforçássemos sempre que estávamos divulgando exclusivamente o que nossos resultados permitiam concluir.
Em seguida, eles indagaram que perguntas nós achávamos que poderiam ser feitas e como nós as responderíamos. E, finalmente, colocaram perguntas que eles consideravam prováveis. Para todas elas, nós respondíamos e eles nos davam sugestões de como melhorar as respostas.

UV – E como foi a preparação para a apresentação dos trabalhos aos jornalistas?
Zantut – Nós preparamos uma apresentação de dez minutos. Eles nos solicitaram que usássemos boa parte do tempo para falar da importância do nosso estudo e que incluíssemos apenas um gráfico de resultados, que deveria resumir os achados principais e ser facilmente entendido. Outra parte da apresentação à qual dedicamos um bom tempo foi a interpretação dos nossos resultados, mostrando didaticamente quais as possíveis implicações dos nossos achados na visão. Segundo os assessores da ARVO, essa é a forma mais adequada de despertar o interesse do público que não está familiarizado com a pesquisa científica.
Nossa apresentação ficou muito boa. Os americanos são muito diretos na forma com que abordam os assuntos e não admitem que as apresentações sejam mais longas do que o tempo destinado a elas. Por isso, esse foi um excelente treino para nós: além de termos vivido essa experiência inédita, ganhamos conhecimentos que nos ajudarão a sermos melhores divulgadores de novas informações, tanto no meio acadêmico quanto para aqueles que não estão vinculados à área da saúde e à pesquisa científica.

UV – Quais foram os outros dois trabalhos apresentados na Conferência de Imprensa?
Zantut – Um deles foi realizado no Schepens Eye Research Institute, afiliado à Harvard Medical School. Os autores promoveram o crescimento in vitro de células ganglionares da retina de camundongos a partir de células-tronco. Em seguida, essas células foram injetadas no vítreo de camundongos e foram incorporadas pela retina. Os pesquisadores ainda conseguiram identificá-las fenotipicamente e comprovar o seu funcionamento. Os resultados podem ter implicações clínicas no tratamento do glaucoma e neurite óptica.
O outro estudo foi realizado na Universidade de Viena e coordenado pela Profa. Dra. Ursula Schmidt-Erfurht (uma das criadoras do PDT). Os autores desenvolveram um modelo computadorizado preditivo da progressão da DMRI para a fase avançada a partir de quatro avaliações fotográficas mensais consecutivas. O modelo previu corretamente a progressão em 74% dos casos e os resultados podem permitir detectar muito mais precocemente o início da forma exsudativa e, portanto, permitir início mais rápido do tratamento.

UV – Na sua opinião, quais os motivos que levaram o seu estudo a receber tanto destaque no congresso da ARVO, que é o mais importante congresso de pesquisa em Oftalmologia do mundo?
Zantut – Esta foi a primeira vez que um trabalho latino-americano foi selecionado e recebeu tanto destaque durante um congresso da ARVO. Na minha opinião, além do trabalho envolver métodos inéditos (mas que já foram validados pelo nosso grupo em publicações internacionais prévias), ele foca no uso recreacional da maconha, que vem aumentando progressivamente no mundo inteiro, de acordo com estatísticas oficiais da OMS. Considerando que atualmente há inúmeras discussões a respeito da legalização da maconha, tanto para uso medicinal quanto recreacional, esse é um assunto muito atual e que ganha cada vez mais relevância.

UV – Qual foi a repercussão do seu estudo na imprensa mundial?
Zantut – Diversas entidades publicaram notícias sobre o nosso estudo. A abrangência foi grande: desde órgãos da imprensa de notícias em geral, de organizações médicas e de associações de pacientes, até de uma organização que defende o uso medicinal da maconha. Para nossa alegria, as informações contidas nas reportagens foram fieis à nossa apresentação e à discussão que houve durante e após a conferência de imprensa. Nos dias seguintes à conferência, ainda recebemos alguns e-mails solicitando informações mais detalhadas sobre o nosso estudo.

Legenda da foto
Autores dos estudos científicos apresentados na Conferência de Imprensa do Congresso Anual da ARVO 2017: Petr Baranov, MD, PhD (Harvard Medical School), Hrvoje Bogunovic, PhD (Medical University of Vienna), Julia Oswald, PhD (Harvard Medical School), Francisco Max Damico, MD, PhD e Paulo Zantut, MD (Faculdade de Medicina da USP).