Como as ferramentas digitais estão revolucionando o atendimento na medicina

Sem dúvida, a tecnologia se tornou uma grande aliada da humanidade nestes tempos modernos em que vivemos. É praticamente impossível hoje pensar em viver sem os aparatos tecnológicos que nos auxiliam em todos os aspectos da vida. E na área da saúde, então, a tecnologia é uma ferramenta importantíssima, seja para auxiliar no diagnóstico e tratamento das doenças, seja para agilizar o agendamento de consultas e entrega de resultados de exames, armazenar dados dos pacientes e facilitar a troca de informações entre os profissionais de saúde.

Na opinião do médico Nelson Akamine, diretor de Tecnologia do Hospital São Paulo/Hospital Universitário da UNIFESP, o amadurecimento e a popularização recente de vários recursos tecnológicos estão revolucionando todos os setores de atividade. Ele diz que, na área da saúde, é fundamental o emprego racional das novas tecnologias como uma forma de ampliar o alcance de atuação e a eficiência assistencial. “Se considerarmos como princípio o computador, temos como pontos significativos de evolução os servidores em redes, a internet e agora uma confluência de funcionalidades representada pela computação em nuvem, big data e inteligência artificial”, esclarece.
Para o especialista, o acompanhamento pelos profissionais de saúde destas novas tecnologias é fundamental para que sejam desenvolvidos recursos eficientes no atendimento dos pacientes. “Estamos assistindo ao surgimento de uma nova onda de produtos que são inteligentes. Os médicos e pacientes estarão interagindo com equipamentos e sistemas de uso intuitivo e com respostas altamente significativas. Eles estarão atuando dentro dos nossos cenários habituais de trabalho, somando recursos importantes em benefício do paciente”, salienta o médico.
Pedro Dias, COO da NexoData e vice-presidente da Liga de Empreendedores do Insper, ressalta que as tecnologias digitais são um importante aliado dos médicos e pacientes para um melhor atendimento. “Na perspectiva do médico, acho válido destacar a importância do prontuário eletrônico e das ferramentas de apoio à decisão médica. O prontuário eletrônico é a base para se construir um sistema integrado de saúde; sem ele, não há como fazer com que as informações de um mesmo paciente sejam compartilhadas de forma segura entre os profissionais”, destaca. Ele diz que na ausência de um documento eletrônico, ou seja, com a prevalência do registro médico em papel, esse compartilhamento torna-se inviável e o histórico clínico do paciente comprometido, por sua vez.
De acordo com o COO, o prontuário eletrônico, inserido em um sistema integrado, permite que o médico, no momento do atendimento, tenha acesso à maior quantidade possível de informações sobre aquele paciente, auxiliando-o na conclusão de um diagnóstico ou na proposição de um tratamento. E olhando exclusivamente para o paciente, Pedro diz que existem alguns aplicativos mobile que podem ser muito úteis, sobretudo para pessoas idosas ou com doenças crônicas. “Dentre os vários tipos de aplicativo, gostaria de destacar os de administração do uso de medicamentos. Além de ajudarem os pacientes com lembretes, alertas e alergias, ferramentas como essa são um importante aliado do setor de saúde, pois auxiliam o paciente a seguir o tratamento proposto pelo médico, evitando complicações futuras e aumento de gastos”, enfatiza.
Ele conta que países com Canadá, Estados Unidos e Suécia já substituíram o registro em papel pelo eletrônico. “Hoje no Brasil é difícil estimar quantos médicos já eliminaram completamente o papel do seu atendimento, até porque, mesmo que ele registre o atendimento em um computador, muitos pedidos médicos, como exames e prescrições, ainda são feitos do receituário em papel. E isso pode ser explicado muito por conta de um fator cultural, que é o conservadorismo do setor”, analisa.
Para modificar essa situação, Pedro acredita que as principais Instituições do setor, hospitais, operadoras, associações e governo precisam atuar em conjunto, exigindo o registro eletrônico como ponto de partida para qualquer conversa.
Para Akamine, a digitalização progressiva de toda a nossa cultura de vida e de trabalho torna inevitável, e até desejável, a migração do papel para um modelo eletrônico. “Temos assim múltiplas vantagens e algumas desvantagens. O abandono do papel tem sérias implicações e muitas delas ainda não assimilamos completamente. De qualquer modo, respeitando-se alguns princípios, é possível um prontuário sem papel.” Ele esclarece que o prontuário é um conceito em evolução. “Ele não deve ser mais considerado como exclusivo do médico e sim de todos os envolvidos, o que inclui todos os profissionais da saúde e, sobretudo, o paciente”, acrescenta.
Sobre as questões de sigilo, privacidade e rigor no armazenamento documental, Akamine enfatiza que estas são características que as novas tecnologias digitais propiciam de modo muito mais fácil e eficiente em relação ao papel. “Originalmente, o prontuário em papel era considerado como somente o conjunto de registros pertinentes aos cuidados assistenciais voltados ao paciente. No entanto, num contexto de big data, grande facilidade de uso e baixo custo para armazenar registros de modo seguro, o prontuário deve passar a conter todos os dados: clínicos, administrativos, públicos, sociais e mesmo aqueles não estruturados que se constituem na maioria das informações relevantes em saúde”, destaca, afirmando que o respeito aos padrões de segurança hoje disponíveis, como serviços básicos de computação em nuvem, atendem de modo adequado todos os requisitos necessários para um prontuário eficiente e seguro.

Pesquisa TIC 2015
Em 2016, o Cetic.br (Centro de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação) divulgou os resultados da terceira edição da TIC Saúde (TIC 2015), pesquisa que investiga a disponibilidade e a adoção de Tecnologias da Informação e Comunicação nos estabelecimentos de saúde brasileiros. Segundo Fabio Senne, coordenador de projetos e pesquisas do Cetic.br, o uso de TIC no setor da saúde tem como objetivo a melhora da qualidade do cuidado do paciente de uma forma geral, promovendo mais segurança dos procedimentos e eficiência no atendimento das necessidades dos pacientes. “Com relação à eficiência na gestão, estas tecnologias promovem a melhora dos processos administrativos, reduzindo o uso de papel e ampliando a capacidade de armazenamento e compartilhamento de informações”, relata.
Para ele, especificamente em relação à assistência em saúde, as TICs permitem o acesso rápido e seguro a todo o histórico clínico de um paciente, por diferentes profissionais habilitados para isso e em diferentes localidades. “Este é o caso do Prontuário Eletrônico do Paciente. As TICs também provêm ferramentas de apoio à decisão clínica através de lembrete e alertas aos profissionais da saúde no momento do atendimento, colaborando para que os profissionais sigam os procedimentos mais recomendados pela mais atual literatura sobre determinado tema, reduzindo erros médicos”, completa.
Outro importante aspecto, de acordo com o coordenador, é a capacidade de ampliar o acesso aos serviços de saúde, particularmente em áreas rurais e distantes dos grandes centros urbanos, por meio do uso de ferramentas de telessaúde. “Este é um uso muito importante das TICs, considerando as dimensões do Brasil e suas desigualdades regionais”, observa, ressaltando que a pesquisa TIC Saúde tem o objetivo de compreender o estágio de adoção das TICs no setor de saúde do Brasil. “Para isto, investigamos a infraestrutura TIC e as funcionalidades disponíveis nos estabelecimentos de saúde brasileiros. A pesquisa também investiga a apropriação que os profissionais da área da saúde fazem destas tecnologias”, acrescenta Senne.
De uma forma geral, ele diz que a pesquisa apontou que o uso do computador e o acesso à Internet estão disseminados nos estabelecimentos de saúde brasileiros (92% usaram computador nos 12 meses que antecederam a pesquisa e 85% acessaram a Internet). “Contudo, permanecem algumas desigualdades, tanto no uso de computador quanto no acesso à Internet: enquanto os estabelecimentos privados, os maiores (com internação e mais de 50 leitos) e os localizados nas capitais atingiram a universalização no uso do computador e do acesso à Internet, ainda são necessários investimentos significativos na ampliação do uso e do acesso para que os estabelecimentos públicos, os menores (sem internação) e os localizados no interior também atinjam a universalização”, comenta.
Para o coordenador, essa desigualdade é ainda maior quando se observa a qualidade da conexão à internet, medida na pesquisa TIC saúde pelo tipo e velocidade de conexão. “Este padrão de desigualdade entre estabelecimentos públicos e privados, grandes e pequenos e localizados na capital e no interior é observado ao longo da pesquisa, com poucas exceções. As principais exceções dizem respeito ao oferecimento de serviços através de telessaúde e a participação em redes de telessaúde, em que os estabelecimentos do setor público apresentam melhores resultados, revelando a importância de políticas públicas focadas em TIC”, destaca.
Com relação à presença de sistemas eletrônicos, segundo Senne, apesar de uma proporção expressiva (77%) dos estabelecimentos de saúde possuir algum sistema eletrônico para o armazenamento das informações dos pacientes, a maior parte das informações armazenadas (78%) era relativa aos dados cadastrais dos pacientes. “As informações mais relacionadas ao atendimento clínico dos pacientes, tais como sinais vitais do paciente (34%) e imagens de exames radiológicos (20%), estavam disponíveis em menores proporções de estabelecimentos”, afirma.
Ele ressalta que o mesmo se verifica com relação às ferramentas eletrônicas disponíveis nos sistemas eletrônicos: as ferramentas mais disponíveis estão relacionadas às atividades de gestão – agendamentos de consultas (50%), pedidos de materiais e suprimentos (49%), solicitações de exames (39%) –, enquanto as ferramentas de apoio à decisão clínica – alertas e lembretes sobre interferência de medicamentos em exames laboratoriais (15%), alertas e lembretes sobre contraindicações (19%) –, fundamentais para auxiliar o profissional da área de saúde no atendimento direto ao paciente, ainda estão pouco presentes.

Experiência pessoal
Na opinião de Akamine, a medicina é um campo de atuação bastante ávido por novas tecnologias. “É comum uma enorme pressão por incorporação de novas tecnologias, mesmo sem uma comprovação de que seu uso seja benéfico e de que exista uma via de financiamento regular”, diz. Ele revela que começou sua jornada com a tecnologia muito cedo, devido aos vários amigos engenheiros. “Ainda nos anos 70, trouxe ao Hospital São Paulo um microprocessador Z80 acoplado a um televisor e um teclado de membrana depois de dois meses de estudo e trabalho”, relembra, comentando que nos anos 80 foi criado o Centro de Informática em Saúde da Escola Paulista de Medicina em meio a um momento de grande efervescência e, anos mais tarde, o Departamento de Tecnologia de Informação da UNIFESP, que abriga ensino e pesquisa de alto nível.
“Tenho uma experiência em grandes instituições de saúde privadas e vários projetos de incorporação tecnológica em instituições públicas”, continua o médico, enfatizando que o grande desafio da tecnologia de informação e comunicação em saúde é como integrá-la de modo prático dentro do contexto de trabalho. “Quando se consegue introduzir novas tecnologias que são assimiladas dentro da cultura dos profissionais e dos pacientes, os resultados são espetaculares”, observa, salientando que hoje os profissionais de saúde contam com uma enorme facilidade no acesso a informações atualizadas em saúde. “Estudos são publicados instantaneamente e os futuros estudos em desenvolvimento estão disponibilizados, de modo que podemos oferecer melhores tratamentos e definir mais objetivamente os prognósticos”, complementa.
De acordo com Senne, atualmente o uso de tecnologia da informação nos estabelecimentos de saúde possui inúmeras aplicações. “Pensando na rápida evolução deste tipo de tecnologia, é ainda mais difícil enumerar as possíveis aplicações que surgirão”, diz, ressaltando que a ampliação da capacidade e do compartilhamento seguro de informação é um dos principais benefícios obtidos através do uso das TICs. “Nesse sentido, a pesquisa TIC Saúde investiga, além da infraestrutura TIC, quatro grandes áreas relacionadas não somente ao armazenamento e compartilhamento de informações, mas também às ferramentas disponíveis através destes sistemas eletrônicos: armazenamento de dados dos pacientes nos sistemas eletrônicos; funcionalidades eletrônicas disponíveis; interoperabilidade de informações; e serviços de telessaúde oferecidos.”
Com relação ao armazenamento de dados, o coordenador explica que os sistemas eletrônicos podem armazenar todo o histórico de exames de um paciente, inclusive os exames de imagem, permitindo ao profissional da saúde e ao paciente avaliar rapidamente seu histórico clínico. “Os sistemas também podem guardar as anotações médicas e de enfermagem de um paciente, seus diagnósticos e histórico de atendimento, alergias, histórico de remédios prescritos etc. Estas informações possibilitam que diferentes profissionais possam compreender rapidamente a trajetória médica de um indivíduo, auxiliando em suas decisões e evitando procedimentos repetidos”, afirma.
Quanto às funcionalidades eletrônicas, Senne destaca que estas podem tanto facilitar a agenda de consultas, a solicitação de medicamentos e a gestão de todos os medicamentos que um paciente está fazendo uso, bem como auxiliar os profissionais de saúde no momento da tomada de decisão clínica, através de alertas e lembretes sobre as melhores práticas para uma determinada situação, ou sobre interações entre remédios administrados que podem comprometer o tratamento. “A interoperabilidade das informações permite que diferentes estabelecimentos tenham acesso ao prontuário eletrônico de um paciente, possibilitando que médicos e estabelecimentos possam tomar decisões com base no histórico de saúde de um paciente. Esta é uma ferramenta fundamental para a integração de sistemas de saúde, como por exemplo, o SUS”, avalia.
Por fim, o especialista enfatiza que os serviços de telessaúde permitem ampliar o acesso à saúde a pacientes localizados em regiões distantes dos grandes centros, além de possibilitar que médicos possam consultar outros profissionais sobre um determinado diagnóstico. “A telessaúde também tem um papel fundamental na educação continuada dos profissionais da saúde, oferecendo aperfeiçoamento, especialização e espaços para que grupos de profissionais de uma determinada especialidade possam compartilhar diagnósticos, solicitar opiniões sobre um determinado caso ou discutir o aperfeiçoamento de um determinado procedimento”, completa.

Dificuldades relacionadas à tecnologia
Uma das principais dificuldades na implantação e uso da tecnologia digital, conforme salienta Senne, é a precária infraestrutura TIC presente em determinadas regiões do país. “A ausência de conexão à Internet, por exemplo, inviabiliza a adoção de sistemas eletrônicos mais complexos”, informa. Ele aponta que os investimentos na melhora desta infraestrutura requerem um grande esforço, considerando as dimensões continentais e as grandes desigualdades regionais do país. Outro fator, segundo o especialista, refere-se à própria adoção da tecnologia em si, pois sua implantação exige considerável investimento, com resultados a médio e longo prazo. “Geralmente, a adoção deste tipo de tecnologia não pode ficar restrita apenas a determinados setores dos estabelecimentos, o que poderia anular os impactos pretendidos inicialmente. Ao contrário, ela exige que toda a gestão do estabelecimento seja integrada no sistema.”
De acordo com o coordenador, a implantação destes sistemas também exige mudanças na cultura organizacional dos estabelecimentos, que muitas vezes sofrem resistências do corpo de profissionais. “Outro aspecto é a alta complexidade dos procedimentos internos de um estabelecimento de saúde, o que os diferencia de uma empresa de outro setor. Muitas vezes, regulamentações sobre o setor da saúde impedem a completa digitalização de procedimentos e documentos, por exemplo”, relata, orientando que para que haja melhor apropriação das TICs nos estabelecimentos de saúde, considerando a alta complexidade de sua atividade, é recomendável que a equipe responsável pela TI do estabelecimento conte com um profissional da área da saúde especialista neste tipo de tecnologia.
“Entretanto, como observado na Pesquisa TIC Saúde 2015, apenas 6% dos estabelecimentos que acessaram a Internet nos 12 meses anteriores à pesquisa possuíam um profissional da área da saúde em sua equipe de TI”, revela, assegurando que a pesquisa mostrou ainda que 85% dos médicos e 75% dos enfermeiros não participaram de nenhum curso, treinamento ou capacitação na área de tecnologia da informação e comunicação. “Estes dados demonstram que a especialização em tecnologia da informação para profissionais da saúde ainda é insipiente no Brasil, configurando-se num obstáculo para o uso integral de todos os benefícios da adoção desta tecnologia nos estabelecimentos de saúde.”
Na opinião de Pedro, as operadoras de saúde e o governo são os principais personagens para virar essa “chavinha” da tecnologia. “Afinal, são eles que pagam a conta de quase todo mundo e, teoricamente, teriam influência suficiente para impor um processo digital. Acontece que ambos vivem um momento muito complicado e só pensam em cortar custos. Investimento nesse momento, por mais que faça muito sentido, não entra na conta”, lamenta, salientando que apesar dos problemas, é visível que boa parte do setor está engajada para essa mudança. “Gestores dos principais players têm um discurso muito alinhado para esse caminho mais digital e conectado. Até mesmo o governo está se esforçando para isso, como mostra o e-SUS. Além disso, estudantes de medicina e médicos recém-formados já estão completamente inseridos em um mundo digital.”
Ele avalia que a implantação da tecnologia na área da saúde é, sobretudo, uma questão de maturidade. “Vale destacar que o desafio da implantação da tecnologia está, principalmente, fora das grandes instituições e na comunicação entre o setor como um todo.” Para Pedro, o Brasil tem profissionais capazes de produzir e manter uma boa tecnologia, porém é importante dividi-la em duas esferas: a dos hospitais e a das clínicas. “Ao falarmos de sistemas de alta complexidade, focados em atender hospitais, temos uma disputa entre tecnologia nacional e importada. Não sei ao certo, mas me arriscaria que é de 50/50.” Ele diz que na esfera das clínicas e consultórios, na qual a complexidade é um pouco menor, a tecnologia é quase 100% nacional. “Portanto, entendo que temos, sim, profissionais capazes de produzir e manter esta tecnologia, não é à toa que é expressivo o crescimento do investimento em startups e empresas de tecnologia em saúde”, afirma.
Para Akamine, a racionalização do uso de recursos mais complexos e de custo mais elevado deve ser instituída no país e isso não depende de tecnologia. “Ela é um processo lento de amadurecimento institucional e da população como um todo, condicionando a administração em saúde de modo lógico e transparente dentro da quantidade de recursos limitados em um país com o nosso perfil econômico e social”, pondera. Na opinião do médico, vive-se hoje um momento especialmente propício para que esta questão seja discutida e que novas políticas de gestão da saúde sejam finalmente praticadas em benefício da população.
“Mas temos uma notícia boa. As novas tecnologias utilizam inteligência e capacidade computacional remotas e não restritas aos limites dos equipamentos locais. Em qualquer ponto do planeta onde exista um usuário com acesso à Internet poderemos oferecer recursos altamente sofisticados”, continua o especialista, salientando que o custo de equipamentos e sistemas computacionais locais tende a ser progressivamente menor, porque eles não precisam mais conter todos os componentes obrigatórios em plataformas locais. “O uso compartilhado de sistemas complexos hospedados em nuvem promoverá serviços cada vez mais inteligentes e com custo compatível a qualquer serviço, mesmo os mais pobres”, finaliza o médico.

Inteligência artificial
Conforme explica o médico do Hospital São Paulo/Unifesp Nelson Akamine, um grande avanço tecnológico aplicável à saúde, hoje ainda embrionário, é o emprego de inteligência artificial na interpretação de imagens e sua interação com linguagem natural. “Num futuro não muito distante, toda imagem diagnóstica será interpretada por profissionais e também por plataformas inteligentes acessadas de modo remoto”, prevê.
Ele afirma ser possível antecipar que as avaliações médicas serão gravadas e muitos desdobramentos podem ser esperados: a transcrição dos diálogos será automatizada e ajustada para a linguagem escrita especializada; o comportamento dinâmico dos participantes será interpretado e fará parte do prontuário; qualquer método diagnóstico que envolva imagem disporá de interpretação inteligente; a inteligência dos sistemas será incremental, oferecendo sempre as condutas mais atualizadas e mais pertinentes; os equipamentos serão sensíveis a comandos verbais, gestuais ou de acordo com o perfil de utilização.
“Todo dado individual estará sendo comparado e acrescentado automaticamente aos dados públicos compartilhados, propiciando os melhores tratamentos e aumento progressivo da eficiência médica”, acrescenta o especialista. Ele diz que estas novas possibilidades reais estão sendo ainda processadas em diversas comunidades e algumas questões ainda deverão ser respondidas, entre as quais como serão formados os novos profissionais da saúde, como promover a melhor interação homem + sistemas inteligentes, que serviços e especialidades desaparecerão. “Por fim, como faremos para garantir que a medicina continue sendo um processo humano, ético e praticado em benefício das populações”, conclui Akamine.

 

Oftalmologia e o avanço tecnológico
“O médico oftalmologista tinha uma relação com a tecnologia na qual ele se confundia com ela e isso foi uma postura, provavelmente, cultural e herdada do desenvolvimento tecnológico como arma diagnóstica, observada hoje em avaliações mais precisas e até quantitativas de aspectos visuais, desde acuidade visual até mapas de retina ou da córnea computadorizados.
O que ocorre é que a tecnologia avançou, contudo o posicionamento do oftalmologista como esse tecnólogo não mudou e hoje essa confusão acaba causando uma descaracterização do médico como médico e uma identificação do oftalmologista como um aplicador de tecnologia nos olhos. Naturalmente a tecnologia cresce cada vez mais rapidamente, diminuindo, portanto, o custo, se for aplicada em mais pessoas.
E como o avanço não pede licença, há um atropelamento da classe oftalmológica pelas novas técnicas oftalmológicas e isso irá, necessariamente, aprofundar-se, e a nossa comunidade terá que se reposicionar para que consigamos fazer um bom uso dela. Portanto, a discussão hoje é qual a posição do oftalmologista no cuidado ocular dos pacientes. Não é, simplesmente, ser um aplicador da tecnologia, então qual é?
Temos que procurar onde somos fundamentais, o que se traduz por melhoria de eficácia e também por barateamento de custo, com aumento no número de atendimentos. Porque sem a presença humana, o diagnóstico é mais mal feito, o paciente se sente mais inseguro, os procedimentos são mal executados… Qual é, então, o nosso papel nisso tudo? Essa é a questão essencial que deve ser respondida e não as questões que têm a ver com o desenvolvimento tecnológico por si só.”
Paulo Schor – professor de Oftalmologia da Unifesp/EPM e chefe do Departamento de Oftalmologia e Ciências Visuais da Unifesp.