Em janeiro deste ano, o jogador de basquete Akil Mitchell, que defende atualmente o New Zealand Breakers, participava de um jogo da Liga Nacional Australiana de Basquete (NBL), em Auckland, quando teve um dos olhos deslocado acidentalmente pelo dedo de um adversário. Segundo relatou à New Zealand Radio Sport, Mitchell sentiu que o olho esquerdo estava quase na sua bochecha. Socorrido em quadra, o jogador foi levado de ambulância a um serviço de emergência da cidade australiana.
Casos de traumas oculares acontecem diariamente em todo o planeta e nas mais diversas situações. Jorge Mitre, oftalmologista fundador e diretor do Hospital de Olhos de São Paulo (HOSP), conta o caso de um paciente que morava no segundo ou terceiro andar de um prédio e sempre que chegava do trabalho ligava para a esposa e lhe pedia para jogar a chave pela janela. “Um dia ela jogou e a chave caiu no olho. Foi um trauma violento, com ruptura de córnea, e o paciente foi para cirurgia. Os traumas contusos são os piores porque o olho estoura, diferente do que acontece com objetos cortantes, que penetram. Mas os dois são muito graves”, explica. O médico comenta que os pacientes que têm perfuração geralmente perdem parte da visão e dificilmente se recuperam. “O melhor tratamento é se precaver”, aconselha.
Entre os traumas oculares mais comuns atendidos no HOSP estão corpo estranho, conjuntivite e glaucoma. Há também aqueles provocados por agressão física. “Nestes casos, geralmente os pacientes escondem o motivo da lesão, já que muitas agressões acontecem dentro da família deles. E quando chegam ao hospital dizem ter sofrido uma queda, por exemplo”, afirma Jorge Mitre.
No Pronto-Socorro de Oftalmologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/Escola Paulista de Medicina), que atende, em média, 150 pessoas por plantão, também aparecem os mais diferentes tipos de traumas oculares, indo de acidentes de trabalho a domésticos, queimaduras oculares, entre outros. “No caso das crianças, acidentes durante as brincadeiras causam casos de perfuração ocular com lápis, caneta, palito de churrasco e brinquedos, que podem ocorrer tanto no ambiente escolar como no doméstico. Queimaduras com cigarro nos olhos das crianças e face também são comuns, porque a altura da face da criança muitas vezes coincide com a altura do cigarro que está na mão de um adulto”, diz Licia Matieli Maidana, vice-coordenadora do Pronto-Socorro de Oftalmologia do Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/Escola Paulista de Medicina). Ela explica que entre a população adulta, os acidentes de trabalho com lixadeiras, pregos e outros são bastante comuns. “A falta da utilização adequada dos itens de segurança corrobora para que esses acidentes aconteçam”, endossa Licia.
A ocorrência de lesões oculares durante a atividade ocupacional tem levado à condução de alguns estudos. Um deles, publicado em dezembro de 2016 na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional e baseado na monografia de Deivisson Freitas da Silva, da Faculdade de Medicina da Bahia, da Universidade Federal da Bahia, trata dos traumas oculares em pescadores. Segundo o trabalho apresentado, as lesões mais frequentes estavam relacionadas à exposição solar excessiva, como a catarata e a degeneração macular senil, e com traumas oculares, como lacerações da pálpebra superior por perfuração pelo gancho de pesca, e contato dos olhos com fragmentos ou secreções de animais marinhos, como peixes, ostras e lagostas, o que leva ao blefarospasmo, abscesso conjuntival ou até mesmo úlcera corneana com evolução para opacidade corneana e limitação da visão. De acordo com os estudos, a maioria das doenças e traumas oftalmológicos relacionados ao trabalho da pesca pode ser prevenida.
Outro estudo, publicado em 2016 na Revista Brasileira de Oftalmologia, pelos autores Felipe de Queiroz Tavares Ferreira, Marjorie Fornazier do Nascimento, Roberta Lilian Fernandes de Sousa Meneguim, Carlos Roberto Padovani, e Silvana Artioli Schellini, avaliou as principais causas dos traumas oculares graves e que demandaram internação no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), entre janeiro de 1998 e dezembro de 2008. No período ocorreram 307 traumas oculares graves que foram internados e operados, com maior frequência entre 26 e 40 anos de idade (26%) e do sexo masculino (82%).
A maioria dos casos entre os adultos decorreu de acidentes de trabalho (31%) ou de trânsito (28%) e em crianças, em ambiente de lazer ou doméstico. O abuso de álcool e/ou droga associado ao trauma ocular foi relatado em 7% dos casos, principalmente por parte de vítimas de acidentes de trânsito (29%) e violência (21%).
A córnea foi o local mais afetado (75%) e a zona I foi a mais atingida (82%). O trauma perfurante foi o mais frequente e o agente causal principal foi o vidro (18%), acometendo principalmente os lavradores (41%). A grande maioria dos portadores de trauma ocular atendidos não usava equipamentos de segurança. Após a cirurgia, a acuidade visual (AV) se manteve abaixo de 0,1 em 48% dos acometidos. O tempo entre o trauma e o tratamento influenciou o prognóstico visual. Conclusão: O trauma ocular grave permanece como uma importante causa de morbidade e cegueira monocular prevenível. O tratamento cirúrgico bem conduzido pode minimizar o prejuízo para a função visual, devendo ser reforçada a necessidade de medidas de prevenção.

Avanços
A Lei n° 9.503, de 23 de setembro de 1997, que institui o Código de Trânsito Brasileiro, determina no Art. 65: “É obrigatório o uso do cinto de segurança para condutor e passageiros em todas as vias do território nacional, salvo em situações regulamentadas pelo Contran.”
Já o selo do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) é obrigatório em qualquer brinquedo comercializado no Brasil e só é concedido se o brinquedo for aprovado em todos os ensaios aos quais for submetido. O que essas duas medidas têm em comum? Depois que entraram em vigor, contribuíram para a redução de traumas oculares atendidos em prontos-socorros, mesmo que muitos casos ainda aconteçam por falta de prevenção.
Hoje, é raro ter acidente automobilístico em que a pessoa entra no parabrisa do carro. Isso é um grande avanço. “Há algum tempo, víamos acidentes horrorosos, com ruptura de córnea, esclero…”, comenta Jorge Mitre, do HOSP. “Além do cinto de segurança e dos brinquedos, a legislação também é muito rigorosa para as empresas no que diz respeito aos equipamentos de segurança. E isso é bom”, conclui. “Hoje ainda se tem muitos traumas dentro das indústrias porque o funcionário vai martelar uma peça e voa um corpo estranho, ou usa lixadeira sem equipamento de proteção individual. As empresas o fornecem e muitas vezes o funcionário não usa”, alerta.

Números
Apesar de serem frequentes, não há muitos dados estatísticos sobre o assunto. O oftalmologista Pedro Carricondo, diretor do Pronto-Socorro de Oftalmologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), comenta que estima-se haver mais de 50 milhões de casos anuais de trauma ocular no mundo, sendo que 1,5 milhão desses ocorrem no Brasil, o que gera custos de aproximadamente US$ 1 bilhão com tratamento. “No Hospital das Clínicas, atendemos ao redor de 1.200 casos por ano, levando-se em conta que são casos graves que necessitam de hospitalização”, diz. “Infelizmente, dados estatísticos do trauma no Brasil praticamente inexistem. Temos algumas publicações isoladas, mas não há um registro nacional ou algo similar. Esse registro seria essencial para o planejamento de uma política de prevenção ao trauma ocular”, aponta.
Realmente isso se faz necessário, afinal o trauma ocular é a mais importante causa de perda visual unilateral, sendo que cerca de 90% das lesões são evitáveis. A faixa etária mais acometida é a produtiva, levando a consequências sociais e econômicas importantes. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a frequência mundial de traumas oculares é de cerca de 55 milhões por ano, sendo que cada um tem interferência nas atividades laborais por pelo menos um dia. Cerca de 750 mil pessoas que passam por trauma ocular precisam de hospitalização. Além disso, o trauma é responsável por 1,6 milhão de cegos, 2,3 milhões de indivíduos com baixa acuidade visual bilateral e 19 milhões com cegueira ou baixa visão unilateral.
A causa mais frequente de perda do globo ocular entre 0 e 10 anos de idade é o trauma ocular, sendo que 58,04% ocorrem em ambientes domésticos e são possíveis prevenir. Tanto em países desenvolvidos, como nos subdesenvolvidos, os traumas oculares por acidente de trânsito e por acidentes de trabalho prevalecem em adultos e jovens, principalmente do sexo masculino. A maioria dos traumas ocorre pela falta de medidas preventivas, como uso do cinto de segurança e de equipamento de proteção individual.

Os desafios no Brasil
Para os especialistas, ainda se enfrenta alguns desafios para atender traumas oculares em serviços de emergência. “Os desafios são muitos, iniciando pela falta de leitos nos hospitais, falta de material (centro cirúrgico com microscópio oftalmológico e outros materiais necessários ao procedimento cirúrgico), falta de equipes treinadas, superlotação das unidades de saúde, etc…”, enumera Licia Matieli Maidana, vice-coordenadora do Pronto-Socorro de Oftalmologia do Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/Escola Paulista de Medicina).
Outro entrave, de acordo com Pedro Carricondo, diretor do Pronto-Socorro de Oftalmologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP), é que a traumatologia ocular fica em segundo plano no Brasil, frente a outras especialidades mais rentáveis economicamente. “A remuneração para o médico atender emergências é muito baixa e há um alto risco envolvido neste atendimento, onde não existe um contato prévio e uma relação médico-paciente estabelecida previamente. A alta complexidade das lesões implica casos de prognóstico muito ruim, mesmo com a melhor conduta do oftalmologista”, afirma.