Quatro mil médicos inscritos, 700 palestrantes, 400 horas/aula de grade científica, 83 empresas expositoras, três mil metros quadrados de feira comercial; ao todo, seis mil participantes, entre palestrantes, expositores, médicos, acompanhantes e pessoas de áreas afins. A 61ª edição do Congresso Brasileiro de Oftalmologia, realizada no início de setembro em Fortaleza (CE), veio sedimentar uma miríade de esforços de planejamento e investimento que ano a ano, em cada evento, vinha crescendo e se aperfeiçoando. Como repórter freelance da Revista Universo Visual que há quase 15 anos trabalha cobrindo as atividades do congresso em todos os seus dias de realização, arrisco dizer – e sei que faço eco a diversos congressistas que ouvi pelos corredores – que a edição deste ano do CBO foi uma das melhores realizadas até hoje, em quantidade e qualidade.
Como afirmar isso se não sou especialista, se não sou o público-alvo do evento? É evidente que a década e meia de cobertura jornalística do CBO não me torna uma oftalmologista, mas em meu ofício de repórter conto com uma ferramenta que é capaz de estender pontes em direção a mundos distintos do meu: a pergunta. Nesses quase 15 anos de cobertura, fiz centenas, talvez milhares de perguntas a oftalmologistas. Perguntas sobre enfermidades, diagnósticos, tratamentos, medicamentos, sobre dados estatísticos, sobre políticas públicas, sobre novas descobertas e desafios da especialidade, sobre o congresso em si, sua estrutura, grade científica, atividades, palestrantes, expositores e sobre os avanços em relação aos congressos anteriores. No garimpo das respostas, cada informação funciona para mim como os elementos de uma pintura que pouco a pouco vai ganhando forma, e embora nunca fique completa – porque não sou oftalmologista e não pretendo ser –, apresenta-se familiar aos meus olhos. É a partir desta familiaridade com o congresso e com a especialidade construída ano a ano que consigo avaliar e confirmar, junto aos congressistas, que o evento realizado em Fortaleza pode ser uma referência de qualidade para as próximas edições.

Tecnologia do micro ao macro
Acessar a internet wi-fi via celular ou computador em um congresso é, hoje, algo relativamente trivial. Não é trivial, porém, se esse wi-fi for totalmente aberto, sem senha ou necessidade de cadastro, para mais de quatro mil pessoas utilizando-o simultaneamente e com estabilidade, como foi no congresso em Fortaleza. Uma ferramenta como essa é imprescindível para oftalmologistas, expositores e participantes do evento em geral, que usam a conexão no contexto do congresso e também para continuar suas rotinas remotamente entre uma atividade e outra. Para a equipe da Revista Universo Visual, que edita o jornal diário UV News durante o CBO, o trabalho sem internet é inviável – basta dizer que sem conexão não conseguimos enviar os arquivos de imagem e texto para que a designer produza o jornal e o envie para rodar na gráfica.
Outro destaque tecnológico foi o aplicativo do CBO, que permitiu aos congressistas organizar uma agenda de atividades que queriam acompanhar durante os dias de evento, a ter mais informações sobre a grade científica, a programar alarmes para avisar sobre aulas, a receber notificações e acessar mapas e informações sobre Fortaleza. As empresas expositoras também investiram em tecnologia. Alcon e Genom, por exemplo, apostaram no uso de equipamentos de realidade virtual para apresentar seus produtos aos congressistas – a Genom chegou a dar como brinde aos participantes de uma das atividades do CBO óculos 3D para uso com celular acoplado.
Wi-fi, aplicativos, equipamentos de realidade virtual, cobertura das atividades publicada nas redes sociais do congresso e outros recursos tecnológicos usados no evento anual são realidades naturais à especialidade, que se destaca entre outras pelo uso intensivo de alta tecnologia no diagnóstico e tratamento das patologias.
A Revista Universo Visual já publicou diversas reportagens sobre o assunto. Lembro-me de ter escrito pelo menos duas: uma sobre telemedicina, para a qual entrevistei o professor Paulo Schor, e outra sobre um topógrafo portátil “que cabe em uma mochila”, criado pelo oftalmologista Francisco Irochima. Nanotecnologia, aparelhos de imagem digital, aplicativos para celular que ajudam no diagnóstico e startups de tecnologia aplicada à oftalmologia foram alguns dos temas abordados pela revista ao longo dos anos.

Aprendizagem
Ser neta de uma avó com glaucoma e que precisou ter o olho esquerdo retirado por conta de uma infecção certamente me fez uma repórter especialmente atenta à oftalmologia. Em cada matéria que escrevi para a Universo Visual e em cada atividade da programação científica que acompanhei nos congressos, as obrigações profissionais eram acompanhadas do interesse pessoal de encontrar alguma informação que pudesse ajudá-la. Não sei dizer qual estímulo foi maior, se o da obrigação profissional ou o do interesse pessoal de buscar mais qualidade de vida para minha avó. Mas é fato que os estímulos se alimentaram mutuamente, a ponto de me fazerem migrar da instintiva repulsa que sentia ao assistir a vídeos de cirurgias nos primeiros congressos ao interesse por assisti-los hoje em dia.
Desde o CBO realizado em Florianópolis (SC) em 2015, minha cobertura preferida das três últimas edições passou a ser a Clínica do Dr. House, que teve sua estreia na capital catarinense. A criatividade e o dinamismo da atividade permitem que o aprendizado seja ativo, uma vez que os participantes partem do contato direto com o paciente [com o ator que interpreta o paciente] para descobrir sua patologia. Mesmo incapaz de acertar os diagnósticos, pude entender a dinâmica dos passos dados em direção a eles a partir de evidências clínicas e de exames pedidos pelos médicos – nessa compreensão, mais elementos vão sendo adicionados ao quadro que mencionei no início deste texto, fazendo com que a oftalmologia se torne mais familiar para alguém de fora como eu. Na anamnese, ao que parece, as respostas que levam ao diagnóstico correto dependem muito de perguntas corretas, e nesse sentido, médico e jornalista se parecem bastante.
Outra atividade que também passou a ser uma das mais interessantes para mim na cobertura do congresso foi a Copa InterOftalmo, com sua dinâmica de gincana de programa de auditório. Um fato interessante dessa atividade no evento de setembro passado é que o oftalmologista Sergio Henrique Teixeira, um dos organizadores da Copa, ao lado de Pedro Carlos Carricondo, Rafael Freire Kobayashi e Wallace Chamon, foi meu entrevistado na Revista Universo Visual há mais de uma década sobre um prêmio que ele havia recebido quando era residente. Ali, durante a segunda edição da Copa InterOftalmo em Fortaleza, era Teixeira quem premiava os residentes participantes da competição.

Receptividade
Melhor do que ter uma abertura do congresso marcante, é ter a abertura e o fechamento igualmente memorável. Também aí a organização do CBO, presidido este ano por Dácio Carvalho Costa e David da Rocha Lucena, teve uma atuação que pode se tornar referência para as próximas edições. Em geral demorada, a cerimônia de abertura do Congresso Brasileiro de Oftalmologia não costuma – costumava – atrair tanta gente quanto podia [e quanto os auditórios em geral comportam]. Na edição de Fortaleza, porém, Costa e Lucena contaram com a experiência da ARX Eventos para inovar: enxugaram o tempo das homenagens, acomodaram os congressistas em mesas redondas para até sete pessoas e liberaram champanhe e comida durante a cerimônia. Resultado: salão lotado até o final, coroado com a apresentação do acordeonista fortalezense Waldonys.
A festa de encerramento, feita a céu aberto, com calor e brisa no Terminal Marítimo, recebeu milhares de pessoas. Mais uma vez, o acolhimento foi exemplar, do buffet ao bar, do show de Dorgival Dantas ao transfer, que não falhou em deixar os congressistas nos hotéis no início da madrugada. Em quase uma década e meia de cobertura, a experiência do 61o Congresso Brasileiro de Oftalmologia foi uma das melhores – talvez a melhor – entre todos os que já acompanhei. Terá sido a brisa, a música, terão sido os aprendizados novos, as perguntas feitas, o wi-fi livre e funcionando, as inovações de formatos da grade científica, a estrutura, a logística, as tecnologias e novidades dos expositores. Terá sido tudo isso: um conjunto de experiências que, ano a ano, faz mais familiar um mundo ao qual não pertenço, mas que acesso com a ponte da pergunta.

Nível internacional
“Minhas expectativas já eram muito boas mesmo antes do congresso. A gente já vinha se preparando há pelo menos dois anos, primeiro em reuniões quinzenais e depois semanais. Eu já sabia que pelo menos a nossa parte estava bem preparada. É claro que temos medo dos imprevistos, mas tudo ocorreu no melhor cenário possível e superou minhas expectativas. Houve muito profissionalismo em todas as etapas. Por exemplo, as aulas começaram e terminaram nos horários marcados, com muita pontualidade; o percentual de palestrantes que confirmaram presença e não foram foi baixíssimo, apenas cinco palestrantes entre cerca de 700, esse é um número extraordinário! Pagamos um wi-fi liberado para o congresso inteiro, sem senha, sem CPF, sem login. A internet funcionou muito bem. Tivemos só uma pequena instabilidade numa sessão, a Copa Interoftalmo, que tinha cerca de 750 pessoas usando o celular ao mesmo tempo, então eram muitos aparelhos, claro. Mas todo mundo elogiou a internet. O aplicativo do congresso estava sensacional: ele informava sobre as aulas de interesse, dizia onde era a aula e livrou as pessoas do peso enorme que é carregar aquele livro [com a programação do congresso]. O transfer dos hotéis funcionou muito bem. A parte social foi excelente. Fizemos algo ousado: colocar aquelas mesas e servir o champanhe e a comida enquanto estava acontecendo a abertura fez as pessoas ficarem. O show do Waldonys foi fantástico. Todas as partes de comida funcionaram muito bem. Contratamos o La Maison, melhor buffet de Fortaleza. A comida da abertura e da festa estava deliciosa. O buffet que funcionou dentro do congresso também estava muito bom. A feira comercial, o design, o tamanho dos espaços, a largura das ruas, as empresas capricharam nos estandes. Foi tudo muito bom. A empresa de design gráfico que contratamos para fazer a imagem do congresso conseguiu dar uma bela identidade visual, até o aplicativo tinha identidade. A festa final foi um desbunde de beleza, de alegria, o local era magnífico. A quantidade de palestrantes estrangeiros foi baixa, e isso foi bom porque marcou a nossa independência enquanto profissão. Os palestrantes estrangeiros, que eram seis ou sete, eram só um tempero. Não tivemos dependência de gente de fora do Brasil para atrair os médicos. O congresso teve um nível internacional sem depender de pessoas de fora, só com pratas da casa. Isso marcou nossa independência em relação à oftalmologia internacional.”
Dácio Carvalho Costa
Presidente do 61º Congresso Brasileiro de Oftalmologia