“Quinze anos é muito tempo em medicina!” Foi o que declarou o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Marco Antônio Rey de Faria, avisando que qualquer tentativa de estabelecer parâmetros sobre como se faziam as coisas em 2002 e como se faz agora sempre seria algo subjetivo e dificilmente consensual. Ele e seus colegas usaram várias vezes a palavra “revolução” para descrever os avanços ocorridos em várias áreas da Oftalmologia nos últimos 15 anos e uma vista panorâmica sobre estas diferentes “revoluções” e suas consequências para a saúde ocular dos pacientes atesta como é difícil a reconstrução da Oftalmologia praticada naquele nem tão longínquo ano de fundação da revista Universo Visual e as mudanças ocorridas a partir de então.

Catarata
Rey de Faria enumera aqueles que, no seu entender, são os avanços mais significativos registrados na área da cirurgia de catarata. Começa com a anestesia tópica, que no período consolidou-se na preferência da grande maioria dos cirurgiões.
Com relação às lentes intraoculares, o professor da UFRN destaca que mais importante do que os novos modelos surgidos foi o desenvolvimento de plataformas que, por sua estabilidade e qualidade ópticas, propiciaram o uso de lentes para a correção com sucesso do astigmatismo.
“O sonho de lentes multifocais tornou-se realidade com o desenvolvimento de tecnologias que permitem esculpir e moldar lentes com superfícies ópticas difrativas e refrativas complexas, que melhoraram muito a visão dos pacientes com lentes multifocais, com redução dos halos e glare e menor perda de contraste, que eram algumas das maiores queixas dos pacientes com relação a essas lentes. Também tivemos a junção de lentes multifocais com lentes tóricas, proporcionando excelente visão e independência dos óculos para pacientes que até então estavam fadados a depender deles permanentemente”, afirmou.
A facoemulsificação já era praticada em 2002, mas os aparelhos usados para a sua realização ganharam sofisticados sistemas de fluídica, que proporcionam estabilidade de câmara. Outra inovação foi o surgimento da faco torcional e elíptica, que aumentou a eficiência e reduziu a energia despendida. Marco Rey afirma ainda que novas ponteiras e novas luvas adequadas aos vários tamanhos de incisões também aumentam a eficiência do procedimento e diminuem queimaduras da incisão e o astigmatismo induzido.
Para ele, novidade mesmo foi a chegada do laser de femtossegundo para a realização de etapas da cirurgia de catarata. “Sua utilização é um avanço, embora não tenha provado ainda que melhore os resultados na cirurgia. Por outro lado, ainda é um aparelho muito caro para essa cirurgia, o que inibe o seu uso e dificulta seu desenvolvimento. Comparo o uso do laser de femtossegundo com a facoemulsificação em seu início, quando não tínhamos substâncias viscoelásticas que protegessem o endotélio, nem lentes intraoculares que entrassem na pequena incisão. Acredito que com o tempo, a popularização e melhor logística, a novidade será progressivamente incorporada de maneira definitiva ao procedimento”, pontifica.
Marco Rey destaca por fim o surgimento de novas técnicas cirúrgicas, como a pré-fratura do núcleo e novas técnicas de implante secundário com fixação da alça na esclera.
Na saúde ocular, 2002 foi marcado como o ano em que foram realizados os grandes mutirões nacionais de cirurgias de catarata. Marco Rey considera que hoje a realização de iniciativas semelhantes é desnecessária nas regiões urbanas e, nas regiões mais afastadas, a melhor solução seria a utilização de centros cirúrgicos móveis.
“Hoje podemos montar verdadeiros hospitais itinerantes para atender esses lugares. Há, entretanto, que se obedecer normas que regulamentam a construção dessas unidades, para evitarmos contaminação e epidemias de infecções, assim como assegurar condições apropriadas de pré-operatório e indicação do procedimento, além da garantia do acompanhamento pós-operatório. Tudo isso guiado por protocolos aprovados por comitê de ética, garantindo desta maneira a saúde da população”, declarou.
E o futuro? Marco Rey considera que as cirurgias facorrefrativas se imporão lenta, mas progressivamente, e que a correção refrativa corneana será utilizada para corrigir pequenas ametropias e melhoria do resultado final e aumento da satisfação do paciente. Tratamento clínico da catarata? Prevenção da desnaturação das proteínas do cristalino e sua opacificação? O professor da UFRN acompanha com interesse, mas com muitas dúvidas, as notícias sobre tais pontos oriundas de centros científicos internacionais.
“Entre o céu e a terra, tudo é possível; vamos ver o que ocorre nos próximos 15 anos”, brinca Marco Antônio Rey de Faria.

Glaucoma
A evolução do glaucoma nos últimos 15 anos tem que ser observada sob três aspectos: diagnóstico, tratamento clínico e tratamento cirúrgico; é o que avalia o professor titular da Disciplina de Oftalmologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), Remo Susanna Júnior.
Para o catedrático, os últimos anos foram marcados pelo aperfeiçoamento dos equipamentos de imagem auxiliares no diagnóstico do glaucoma, com a consolidação dos aparelhos de OCT (Optical Coherence Tomography – Tomografia de Coerência Óptica), que ocuparam a maior fatia do mercado em detrimento dos aparelhos GDX (Scanning Laser System) e HRT (Heidelberg Retina Tomograph).
“Outro fator importante no tratamento do glaucoma, que envolve fator de risco, foi a descoberta de que a espessura corneana é importante porque quando a córnea é fina, a medida da pressão apresenta valores inferiores aos reais e quando a córnea é mais espessa, a medida da pressão pelo tonômetro de Goldman apresenta valores mais elevados do que a existente dentro do olho. As propriedades biofísicas da córnea também adquiriram importância no correto dimensionamento da probabilidade de progressão da doença”, explicou Remo Susanna Júnior.
Por outro lado, acrescentou que o debate que existia sobre qual o parâmetro mais importante da pressão intraocular (PIO), se o pico ou a média ou ainda sua flutuação, hoje está suficientemente esclarecido. “A flutuação tem poder muito pequeno, além de ser de muito difícil medição e não ser reprodutível. O estabelecimento da média também mostrou-se inconclusivo e a medida do pico tornou-se, então, a forma mais fácil e segura de avaliar a PIO para avaliar a progressão da doença e o cálculo da pressão-alvo do paciente,” afirmou.
Quanto ao tratamento clínico, o período foi marcado pelo surgimento de várias combinações fixas de drogas que permitem o uso de dois componentes num mesmo frasco, com menos conservantes. Tais aprimoramentos, de acordo com o especialista, contribuem para o aumento do conforto do paciente e da fidelidade ao tratamento.
Por fim, quanto à cirurgia, houve aprimoramentos nas técnicas para a realização da trabeculectomia, considerada por Remo Susanna Júnior como o padrão ouro deste tipo de tratamento.
No período foram testados outros procedimentos, como a cirurgia de esclera não penetrante, que é usada principalmente na Europa, mas que não se consolidaram no continente americano.
“Atualmente outras cirurgias estão surgindo, com destaque para as chamadas cirurgias minimamente invasivas, como por exemplo as cirurgias canaliculares, feitas na câmara anterior, que reduzem pouco a pressão, são indicadas para o paciente tirar uma medicação ou evitar que necessite de outro colírio e geralmente precisam ser associadas à facoemulsificação, que por si só já reduz a PIO. Outra cirurgia que parece ser promissora, mas necessita de mais tempo de seguimento, é a colocação de implante via câmara anterior para escoamento sob a conjuntiva. É uma fístula, só que a cirurgia é muito mais fácil, rápida, com menos complicações que a trabeculectomia, embora envolva custos maiores, concluiu o professor titular de Oftalmologia da USP, Remo Susanna Júnior.

Retina
O diagnóstico e o tratamento das doenças da retina constituíram uma das áreas da medicina que mais se beneficiaram dos avanços tecnológicos ocorridos nas últimas décadas, de acordo com o coordenador do Setor de Oftalmologia do Centro Cirúrgico do HCFMUSP e diretor de Assuntos Internacionais da Sociedade Brasileira de Retina e Vítreo (SBRV), Leandro Cabral Zacharias.
“O principal avanço na área do diagnóstico foi o desenvolvimento da tomografia de coerência óptica. Os primeiros modelos de OCT foram comercializados desde o final da década de 1990, mas durante os anos 2000 os avanços tecnológicos permitiram a obtenção de imagens cada vez mais detalhadas, com resolução de alguns micra, reproduzindo in vivo verdadeiros cortes histológicos da retina. Essa tecnologia nos auxiliou a compreender melhor a fisiopatologia de diversas doenças retinianas, realizar diagnósticos mais precoces, e acompanhar de maneira seriada e objetiva a resposta a diversos tratamentos”, afirmou.
O médico da USP acrescentou que outro avanço diagnóstico relevante foi a obtenção de imagens em grande angular, que permitem a documentação de aproximadamente 200 graus da retina de uma só vez.
Na parte de tratamento, Zacharias considera que a fotocoagulação a laser, já consagrada no início do século, tornou-se mais difundida e acessível e também foi contemplada com avanços tecnológicos, tais como diferentes cumprimentos de onda, que podem ser incorporados ao mesmo aparelho para tratamentos distintos, criação do laser em padrão ou grade que permite disparos quase simultâneos, que causam menos desconforto ao paciente e laser em micropulso, que provoca menos danos colaterais nos tecidos.
“Agora temos também o laser navegado por software, que permite ao médico selecionar os pontos específicos para a realização do tratamento e o laser é emitido pelo computador com precisão milimétrica. Por isto, o tratamento a laser das doenças da retina, que existe há décadas, vem sendo constantemente reinventado com a incorporação de novas tecnologias e tornando-se mais acessível”, afirmou.
Outra terapia consagrada, a vitrectomia via pars plana, também experimentou modificações ao longo dos anos e atualmente é cirurgia muito mais segura e efetiva. Zacharias cita alguns dos avanços que considera mais significativos neste ponto: sistemas de grande angular permitiram melhor visualização da periferia retiniana; cirurgia por trocanteres transconjuntivais introduzida em 2005 por Eugene De Juan, que permitiu a realização de procedimentos com instrumentos mais delicados, de menor calibre e maior precisão, sem necessidade de suturas; sondas com velocidades de corte cada vez mais rápidas melhoraram a fluídica e o controle cirúrgico, permitindo a remoção efetiva do vítreo e desenvolvimento de corantes para permitir a identificação e remoção com segurança de tênues estruturas pré-retinianas.
“Mais recentemente, tivemos a utilização intraoperatória de OCT acoplado a microscópios e a vitrectomia assistida por recurso digital, que utiliza câmeras e sensores digitais para compor a imagem tridimensional de grande resolução, que permite ao cirurgião trabalhar com luz menos intensa. Estes últimos dois avanços ainda não são muito difundidos, pelo alto custo relacionado, mas como toda tecnologia, a tendência é que eles se tornem mais acessíveis e difundidos ao longo do tempo. Também não podemos esquecer a cirurgia robótica, ainda em fase experimental”, declarou.
Porém, Zacharias considera que o grande divisor de águas na terapia retiniana ocorrida nos últimos anos foi a injeção intraocular de medicações anti-VEGF (sigla em inglês de fator de crescimento endotelial vascular), inicialmente aprovadas para tratamento da degeneração macular relacionada à idade (DMRI) na forma exsudativa e posteriormente utilizadas para tratamento de outras condições, como oclusões venosas e edema macular diabético.
“O impacto foi e está sendo extraordinário. No caso da DMRI na forma exsudativa, antes da era das injeções intravítreas apenas 10% dos pacientes apresentavam visão de 20/40 ou melhor dois anos após o diagnóstico da doença; hoje, 50% dos pacientes retêm visão de 20/40 ou melhor cinco anos após o início do tratamento, segundo dados do estudo CATT. A diferença em qualidade de vida é sensível. Mas os desdobramentos dos avanços terapêuticos que estamos presenciando são bem mais amplos, pois a baixa visão em idosos está associada a risco maior de quedas, com as morbidades relacionadas, e também a maior taxa de depressão. No caso de pacientes diabéticos, o controle rigoroso da glicemia continua sendo a principal arma para retardarmos e minimizarmos a retinopatia diabética, mas as injeções intravítreas auxiliam a restaurar a visão em boa parte desses pacientes, sobretudo nos que apresentam edema macular, sendo mais efetivas que a aplicação isolada de laser, segundo diversos trabalhos científicos. Além disso, a severidade da retinopatia diabética comprovadamente retrocede após injeções intravítreas de antiangiogênicos”, explicou o médico da USP.
Para o futuro, Zacharias considera que a injeção cirúrgica de vetores adenovírus ou lentivírus no espaço sub-retiniano através de vitrectomia provavelmente terá grande progresso no tratamento de doenças hereditárias da retina, ao passo que o transplante da retina ainda continua distante; da mesma forma, a utilização de células-tronco, que continua experimental e sujeita a lamentáveis acidentes. Considera, também, que o chip de retina, por seu alto custo, ainda continuará tendo utilização muito restrita nos próximos anos.
“Penso que novas drogas, mais efetivas que os atuais anti-VEGF surgirão, personalizando e melhorando ainda mais o resultado dos tratamentos de pacientes com problemas retinianos. Plataformas de liberação lenta poderão reduzir a necessidade de constantes reaplicações, reduzindo o desconforto dos pacientes e a necessidade de aplicações periódicas. A restauração da mácula através de células-tronco e transplantes retinianos confeccionados em laboratório abririam horizonte totalmente novo no tratamento de pacientes com danos hoje irreversíveis. No plano cirúrgico, creio que a curto prazo os sistemas digitais permitirão integração de imagens como o OCT intraoperatório e imagens endoscópicas simultaneamente à imagem cirúrgica tradicional modificarão a atuação do cirurgião. A retina evoluiu muito nos últimos 15 anos, mas ainda temos muito a evoluir no tratamento e cuidado dos nossos pacientes”, concluiu Leandro Cabral Zacharias.

Córnea
Para o professor associado do Departamento de Oftalmologia da FMUSP, Milton Ruiz Alves, os avanços ocorridos em passado recente na área da córnea estiveram ligados à propedêutica, isto é, aos equipamentos que melhoraram o conhecimento e permitiram obter informações das doenças da superfície ocular e das condições para melhor tratar o paciente.
“Há alguns anos, para diagnosticar o olho seco usavam-se corantes e papel de filtro para medir a produção de lágrimas. Hoje temos equipamentos que medem por meios não invasivos a altura do menisco do filme lacrimal, a espessura da camada lipídica do filme lacrimal, o tempo de rompimento da lágrima e muitas outras coisas”, explicou Ruiz Alves.
Na área da topografia e ceratometria, os equipamentos de wave front permitem medidas com precisão de 0,01 dioptria e grandes avanços no diagnóstico de astigmatismos irregulares. Embora já tenham mais de 15 anos, Ruiz Alves explica que tais aparelhos são constantemente aprimorados com a incorporação de tecnologia de última geração.
“Todos estes equipamentos, topógrafos e tomógrafos e OCTs trouxeram novas luzes a uma série de problemas. Hoje, com a tomografia de coerência óptica da córnea, conseguimos verificar a presença de células negríticas, que até há pouco tempo não sabíamos para que serviam e hoje sabemos que têm participação ativa em processos inflamatórios. As descobertas continuam e ainda temos muito a percorrer, mas o progresso obtido nos últimos anos foi espetacular”, afirmou.
Na parte cirúrgica, Ruiz Alves destaca o recente uso de laser de femtossegundo para colocação de anéis intracorneanos para correção de astigmatismos irregulares e ceratocone e a popularização das técnicas de transplante lamelar da córnea.
Ressalta também que os fármacos que evoluíram, com a fabricação de antibióticos mais potentes e com penetração maior, corticoides que controlam o processo inflamatório sem desencadear efeitos colaterais importantes, como aumento da pressão e catarata e novos anti-inflamatórios que atuam em células envolvidas em processos que destroem a córnea.
“Assistimos à confluência do desenvolvimento de equipamentos para diagnóstico, para obtenção de informação sobre a condição do tecido corneano e da forma de tratamento. Temos antibióticos melhores, anti-inflamatórios melhores, cirurgias de reconstrução da superfície melhores. Torna-se viável a possibilidade de colonizar uma membrana amniótica a partir de pequeno número de células-tronco, tiradas do olho contralateral, em laboratório e realizar o transplante para a recuperação mais rápida da superfície ocular. Enfim, estamos passando por uma revolução nesta área”, concluiu Milton Ruiz Alves.

Refração
Se na área de córnea e doenças externas, Milton Ruiz Alves ressalta os avanços científicos e tecnológicos de vanguarda, no campo da refração ele ainda espera que o progresso seja medido com adoção de técnicas e aparelhos que permitam a realização de grande número de exames de forma confiável, rápida e econômica.
“Como determinar o grau das lentes que o paciente precisa não é problema há pelo menos dois séculos. O problema é como chegar a isso de maneira rápida, reprodutível e em larga escala e atender a uma parte substancial da população que não tem acesso à refração feita em consultório médico oftalmológico. Há uma revolução tecnológica nesta direção em várias partes do mundo, mas que ainda não se concretizou em termos práticos aqui no Brasil”, disse.
Milton Ruiz Alves explicou que equipamentos chamados foto-screeners permitem examinar pessoas e identificar aquelas que precisam de exames oftalmológicos completos. Cita como exemplo que um aparelho desses permite a triagem de 300 crianças em uma manhã e cita também que, ainda hoje, no Hospital das Clínicas da USP, cerca de 50% das crianças enviadas pelas professoras para o programa oficial de atendimento oftalmológico de escolares são triadas de maneira equivocada, o que representa grande desperdício em todos os sentidos.
Conta que quando começou na Oftalmologia, a refração era feita com espelho plano, semelhante ao utilizado pelos otorrinolaringologistas e que atualmente é possível fazer exames extremamente sofisticados com aparelhos de wave front. Além disso, os recursos da teleoftalmologia permitem que o olho seja fotografado em determinado local e o exame feito por um especialista em outro.
“A refração ocular é uma coisa magnífica e as novas tecnologias apontam para uma realidade na qual toda a população possa ser atendida e possa enxergar com qualidade. Mas para isto temos que quebrar paradigmas e ousar na adoção de novas tecnologias de forma apropriada”, concluiu Milton Ruiz Alves.

Lentes de contato
Há 15 anos o Brasil ganhou a primeira edição da revista Universo Visual. Entre os bons artigos publicados neste período, muitos tiveram como principal tema as lentes de contato. Assim, a revista acompanhou e participou da evolução das lentes de contato no Brasil de 2002 a 2017.
Segundo Paulo Ricardo de Oliveira, Doutor em Oftalmologia pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e ex-presidente da SOBLEC, as lentes de contato são um recurso extraordinário. O seu uso é motivo de alegria para muitas pessoas por dar-lhes a condição de enxergarem sem óculos, trazendo-lhes uma agradável sensação de liberdade. Para atletas, que apresentam problemas de visão, estão associadas à capacidade e segurança na prática de esportes. Para outros representam uma melhora da estética equivalente ou mesmo superior a uma cirurgia plástica bem sucedida. Existem ainda aqueles que têm, nas lentes de contato, a única opção para verem o que precisam em tudo que fazem.
Segundo conta, muita coisa mudou na Oftalmologia durante este tempo e as lentes de contato fazem parte deste processo. Novos materiais, desenhos mais compatíveis com a topografia e a fisiologia da córnea e modernas tecnologias tornaram-nas mais sofisticadas, seguras, eficientes e com um número ainda maior de indicações.
Para ele, não é possível escrever sobre lentes de contato no Brasil, sem mencionar a atuação da SOBLEC, que há 46 anos, além de atuar nas áreas de córnea e refração, contribui para a divulgação, modernização e ensino da adaptação de lentes de contato no nosso país, orientando e treinando os oftalmologistas e seus auxiliares. “Nos últimos 15 anos, utilizando os mais modernos recursos de informática e mídia, a SOBLEC desenvolveu um extraordinário e pioneiro programa de educação continuada à distância, beneficiando estudantes, residentes, oftalmologistas e seus auxiliares e até mesmo informando a população geral, sempre com seriedade, responsabilidade e ética”, explica Oliveira.
Sem deixar de usar os recursos tradicionais, aproveitando a tecnologia avançada disponível na atualidade e contando no seu quadro social e científico com palestrantes, que estão entre os maiores conhecedores do assunto no Brasil, fortaleceu sua credibilidade no país e adquiriu credibilidade internacional, sendo na atualidade, o pilar mais importante do Conselho Médico Internacional de Lentes de Contato (IMCLC), ao lado das sociedades americana, européia e japonesa. “O advento de materiais de alta permeabilidade ao oxigênio propiciaram a produção de lentes mais seguras e confortáveis. A produção em série e com baixo custo viabilizou a existências das lentes de contato descartáveis de uso único, que tem ganhado a preferência de grande parte dos usuários, especialmente nos Estados Unidos, em alguns países da Europa e no Japão. No Brasil, a sua utilização tem crescido de forma relevante e são as mais indicadas para uso ocasional”, revela.
Para Oliveira, os novos materiais rígidos gás-permeáveis tornaram possível a criação de novos desenhos e diâmetros para córneas irregulares, aumentado a taxa de sucesso na adaptação destes casos difíceis.
“A utilização de uma lente de contato gelatinosa sob uma lente de contato rígida gás-permeável, técnica chamada de adaptação a cavaleiro, com os novos materiais, passou a apresentar baixo risco de complicações, proporcionando o conforto das lentes de contato gelatinosas, com a qualidade de visão das lentes rígidas”, avalia. “São suas principais indicações a intolerância às lentes de contato rígidas e a dificuldade de centralização e estabilização sobre a córnea. É recomendável adaptar uma lente de silicone-hidrogel de grau baixo e sobre ela, uma rígida gás-permeável. Como não se recorre à adaptação a cavaleiro sem antes tentar uma rígida, adapta-se sobre a de silicone-hidrogel a rígida que tiver mostrado o melhor padrão de adaptação. O poder da rígida é determinado por sobre-refração. Ambas precisam apresentar mobilidade para que haja adequada troca lacrimal sob as duas”, explica.
De acordo com o especialista, apesar da importância de avanços como as lentes de contato de silicone-hidrogel, lentes de descarte diário, lentes rígidas de alta transmissibilidade ao oxigênio, lentes de curva reversa para pós-cirurgia refrativa, lentes de ortoceratologia para correção temporária da miopia e para controle da sua evolução em crianças e adolescentes, o que mais causou repercussão no meio médico e que talvez tenha trazido mais benefícios para os pacientes, foi o surgimento das lentes rígidas de diâmetro grande, maior do que o da córnea, as semi-esclerais e esclerais. “Surgidas em 1880 o seu material não-permeável ao oxigênio, o vidro e o desenho simples inviabilizaram o seu sucesso. Na última década, feitas com material de alta permeabilidade e desenhos sofisticados, computadorizados, ganharam popularidade entre médicos e pacientes”, revela.
Na atualidade, Oliveira salienta que as lentes rígidas, quanto ao seu diâmetro ou a sua zona de apoio, podem ser classificadas em corneais, com diâmetro igual ou menor do que o da córnea, ou seja, até 12,5 mm aproximadamente. As maiores do que a córnea podem ser classificadas em semi-esclerais de 12,50 a 15 mm e esclerais de 15 a 25mm de diâmetro. As de 15 a 18 mm são também chamadas de mini-esclerais.
“Estas medidas podem variar ligeiramente dependendo do autor da classificação, mas o mais importante é que vieram resolver o problema de pacientes que há anos não conseguiam enxergar bem e apresentam conforto e acuidade visual muitas vezes surpreendentes”, acrescenta.
Segundo conta, apesar da grande evolução da cirurgia refrativa, dos diferentes desenhos e materiais do anel intra-estromal, dos diferentes tipos de transplante de córnea e da moderna cirurgia da catarata, muitos pacientes não alcançam uma visão satisfatória e as lentes de contato, frequentemente, voltam a ser a melhor opção ou mesmo a única, em determinados casos, capaz de fazê-los enxergarem o suficiente para trabalharem e desenvolverem suas atividades habituais.
“No Brasil, produzem lentes esclerais e semi-esclerais as empresas Solótica, Mediphacos, Ultralentes e outras que estão entrando neste mercado. Lentes com desenhos que apresentam diferentes opções de curvatura, zona óptica, diâmetro, elevação da borda, toricidade e mesmo assimetria estão à disposição dos oftalmologistas”, acrescenta.
Oliveira afirma que são lentes fantásticas, mas não são para todos os casos. “Sua adaptação é complexa e suas indicações são específicas e devem ser restritas aos casos em a utilização de lentes mais simples não é viável. Por isso, mesmo que o oftalmologista seja experiente na adaptação de lentes de contato, ele deve ter um canal de comunicação com um consultor da empresa responsável pela fabricação ou distribuição das lentes que ele utiliza, para tirar dúvidas e buscar soluções para seus pacientes. Já quanto à técnica de adaptação, embora haja uma orientação geral, cada marca e desenho tem suas peculiaridades e a melhor conduta é seguir a orientação do fabricante, que acompanha ou deve acompanhar a caixa de prova”, explica.
Enfim, Oliveira diz que, com todo este progresso, a adaptação de lentes de contato, mais do que nunca, tornou-se uma subespecialidade da oftalmologia e, como todas as outras, requer esforço, investimento e sobretudo conhecimento e atualização constante. Isto, entretanto, não significa que o oftalmologista não especialista não deva trabalhar com lentes de contato. “Ao contrário, é muito importante que trabalhe, que ocupe o espaço e caso não queira envolver-se com os casos mais complexos, os encaminhe para um colega mais experiente, não deixando o paciente sem a devida orientação”, finaliza. “Parabéns à Revista Universo Visual, que nestes 15 anos acompanhou e divulgou o progresso das lentes de contato e da Oftalmologia brasileira como um todo”.

Longo caminho
Em 2002, o presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia era Suel Abujamra, professor livre-docente da USP e fundador do Instituto Suel Abujamra. Com visão mais pessimista, preocupa-se em levar seus colegas médicos oftalmologistas a refletirem sobre o alcance do progresso científico e tecnológico e de como colocá-lo a serviço da saúde ocular da população.
“Quando vou aos congressos vejo avanços tecnológicos inimagináveis, mas como trazer tudo aquilo para a realidade, para o paciente pobre, para o Brasil que passa por uma enorme crise? A maioria desses avanços implica custos crescentes, que os deixam fora do alcance dos nossos pacientes. Temos que levar em conta que os avanços tecnológicos não acontecem no vazio, mas sim em ambiente social, econômico, político e cultural que os moldam completamente. No Brasil, infelizmente, a Oftalmologia ainda está muito aquém das necessidades de nosso povo”, lamenta.
Abujamra esclarece que não existe no país nenhuma política unificada de prevenção da cegueira e de atendimento oftalmológico em larga escala. Afirma também que o paciente do SUS fica preso no sistema, sendo encaminhado de uma instituição para outra e que quando chega ao local onde pode receber assistência oftalmológica adequada, muitas vezes já é tarde demais, principalmente em casos de retina e glaucoma.
“Não quero ser o chato, mas apenas pedir para que os médicos oftalmologistas reflitam sobre a realidade que nos cerca e de como podemos utilizar a maravilhosa tecnologia que existe na Oftalmologia em benefício da população. O avanço dos últimos anos em todas as áreas da especialidade foi revolucionário, mas a maioria da população brasileira ainda não enxerga por falta de óculos e catarata e a maioria dos cegos do país chegaram a esta condição por falta de atendimento na hora certa. Alguma coisa precisa ser feita”, sentencia categórico Suel Abujamra.